Prefeitura sem tempo para falar sobre o resgate da História de Campos

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O professor de literatura e escritor manauara Milton Hatoum disse um dia que “A vida começa verdadeiramente com a memória”, em clara demonstração sobre a importância daquilo que se deixa como legado às futuras gerações. Mas o que pode se revelar frustrante é quando uma história, mesmo que grandiosa, não chama a atenção do seu próprio povo, que, ao virar as costas para esse legado, lança seguidas “pás de cal” sobre os grandes feitos, fadados a caírem no eterno esquecimento.

No esquecimento do tempo

Campos pode estar no limiar desse contexto, tendo construído ao longo de séculos uma história de lutas e glórias que colocaram a cidade em uma posição de destaque no país, mas que nas últimas décadas vem se perdendo no desinteresse de se repassar aos próximos, seus grandes feitos. Sem esforço, é possível comprovar o quase total desconhecimento sobre vultos como Nilo Peçanha, Benta Pereira, Cardoso Moreira, Alberto Lamego, José Carneiro da Silva e diversos outros, muitos deles ligados a títulos nobiliárquicos da época.

Campistas desconhecem a sua própria história

Uma breve enquete pela Praça do Santíssimo Salvador, no Centro da cidade, leva rapidamente à comprovação sobre o risco de perda de identidade. A maior parte das pessoas desconhece a existência de um Museu Histórico Municipal a poucos metros, o mesmo sobre prédios históricos que ainda restam pela região. E o que está por trás de um canal de mais de cem quilômetros de extensão com quase 200 anos de história e que um dia foi importante no escoamento de produtos e transporte de passageiros entre Campos e Macaé.

O Visconde Araruama, o herdeiro do prédio do atual Museu Histórico de Campos

Visconde de Araruama

Filho de Ana Francisca Velasco de Barcelos Coutinho e do capitão Manuel Carneiro da Silva, José Carneiro da Silva, o então conhecido Visconde de Araruama, nasceu em 21 de maio de 1788, na fazenda Mato de Pipa1, na freguesia de Nossa Senhora do Desterro de Capivari, hoje município de Quissamã, RJ.

O visconde herdou o emblemático sobrado pertencente a seu tio José Caetano Barcelos Coutinho, situado na Praça São Salvador da Cidade de Campos, RJ, onde residiu com sua esposa Francisca Antônia Ribeiro de Castro, nascida em 24 de março de 1799, filha do Capitão-mor Manuel Antônio Ribeiro de Castro, primeiro Barão de Santa Rita, e de Ana Francisca… (Por Graziela Escocard)

Promessa

Andréia Mota

– Esse prédio aqui atrás é um museu? Eu não sabia. Passo sempre por aqui, mas nunca soube que Campos tinha um museu. Quando eu tinha 10 anos, fui a uma excursão de escola a um museu em Quissamã, mas desse aqui eu ainda não havia ouvido falar não – confessa Andréia Mota Freitas, de 18 anos, 2º grau recém concluído. Para “se redimir”, lançou um “incentivo” ao irmão David, de 12 anos, que, segundo ela, gosta muito de história. “Passando essa pandemia, a gente vem fazer uma visita ao museu. Com certeza”.

Surpreendido pela própria História

Em situação menos “incômoda”, o empresário Carlos Alberto Bastos, 25 anos, ao menos sabia da existência do museu logo atrás de onde estava sentado. Mas igualmente jamais havia entrado no prédio, antiga residência de José Carneiro da Silva, o Visconde de Araruama, restaurado entre 2009 e 2012 e transformado em museu. “A gente sempre passa na correria e vai deixando pra depois. Mas após essa pandemia, vou visitar junto com a esposa e meu filho de 5 anos”, prometeu. Em uma lista com nomes de cinco importantes vultos da história do município, Carlos lembrou apenas de Nilo Peçanha.

Personagens históricos de Campos, ilustres desconhecidos dos campistas

Franciele Domingues

A autônoma Franciele Domingues, 34, mesmo com o secundário completo, admitiu que também desconhecia a maioria entre 10 nomes citados de personagens históricos do município, lembrando-se apenas de Nilo Peçanha. Também jamais havia ouvido qualquer menção à história do Canal Campos Macaé. E igualmente aos anteriores, prometeu reparar o “erro”. “Logo que puder, vou trazer meu filho Kaylon, de 10 anos, e a filha Jasmyne, de 5, para uma visita ao museu”.

Solução é investir nas novas gerações

Para Graziela Escocard, coordenadora do Museu, a luta para incutir no campista a noção de pertencimento é árdua, mas gratificante. Ela reconhece que o grande investimento deve ser feito nas novas gerações, trabalho incentivado já há alguns anos junto às escolas, sejam públicas ou privadas. “São nossa grande esperança, porque as imagens de nossa infância normalmente guardamos para sempre. Temos diversos projetos e formas didáticas de mostrar essa rica história aos nossos alunos e acreditamos bastante no resultado a médio e longo prazo”, explica.

70% dos visitantes são do próprio município

Mesmo com o pouco interesse demonstrado pelo campista em relação à sua história, dos cerca de 3 mil visitantes mensais do museu, aproximadamente, antes da pandemia,  70% são do próprio município, explica a coordenadora. O restante se divide em turistas, principalmente de municípios e estados vizinhos, além de outros países, principalmente em períodos de Olimpíadas e Copas do Mundo, eventos que aquecem o turismo mundial.

História campista deveria ser incluída no currículo escolar

Uma questão a ser considerada pelas autoridades, seria a inclusão no currículo escolar, de uma disciplina exclusivamente voltada ao estudo sobre o município de Campos. Graziela lembra que em seus primeiros anos de escola, estudou essa disciplina em uma série de quatro livros de titulo “Gente da Terra”, das escritoras campistas Marluce Guimarães e Maria Nilza Gonçalves Patrão. A obra traz uma abordagem completa não só da História, mas também da Geografia e da linguagem pitoresca e própria do campista. “Fico emocionada, porque a partir daí, é que hoje sou uma historiadora”, revela Graziela.

Prefeitura sem tempo para falar sobre o resgate da História de Campos

A reportagem de Somos procurou a presidência da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima, para falar sobre possíveis novos projetos de incentivo ao nativo pela história do município, mas os representantes não puderam falar, por estarem envolvidos em um festival. Também acionada, a Secretaria Municipal de Educação não se pronunciou sobre a possibilidade de incluir a história do município na grade curricular da rede municipal.

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