A Era dos Coronéis e as suas histórias íntimas

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“Então, vendo a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento, tomou do seu fruto, comeu, e deu a seu marido,e ele também comeu..” (Gen. 3:6)

Segundo as antigas crenças medievais, a mulher não tinha o direito de sentir prazer, tinha seu corpo impuro e ressuscitaria como homem. Esta ideia chegou a Campos com os primeiros colonizadores, e aqui as leis tornavam-se mais rígidas pela distância da Europa, onde ocorria a reforma religiosa.

Entre os anos do Brasil colonial ao do Império, e em nossa cidade até a primeira metade do século XX, a “Família Patriarcal” era o padrão dominante entre as elites agrárias, e nas regiões rurais o concubinato e as uniões informais com filhos ilegítimos era algo muito comum. Estudando a história da minha família materna pude observar de perto tal fato. O meu tataravô, latifundiário e “Coronel”, foi casado com a própria tia, prática muito comum entre as famílias abastadas para manter o poder e as propriedades em família. Ao mesmo tempo, em suas fazendas, o meu tataravô uniu-se a diferentes mulheres, gerando muitos outros filhos.

Com a chegada da república e do século XX, há uma grande transformação na vida urbana e, diretamente, na vida da mulher campista de um modo geral. Não podemos negar que durante a colônia e o império tivemos casos de mulheres modernas e bem a frente de seu tempo, como a Viscondessa de Muriaé, Benta Pereira, Mariana Barreto, e na minha família, a mãe do meu tataravô, herdeira de sangue de Benta Pereira, dona Úrsula, como era chamada, foi a “Chefe da família”, enterrou 3 ou 4 maridos e manteve com firmeza o controle da família.

Durante todos estes anos, os “prazeres da carne”, na maioria das vezes, eram apenas permitidos aos homens, e, aos poucos, durante a Belle Epoque com os cabarés, os teatros, a fotografia e o cinema seriam os grandes responsáveis pela desmitificação do corpo da mulher. Segundo a escritora Mary del Priore, em seu livro “Histórias Íntimas”, ainda na primeira metade do século XX, o Carnaval era mal visto e criticado entre os mais conservadores: “O carnaval era visto como uma festa perigosa, depravada, na qual ‘as ligações mais secretas transparecem, em que a virgindade é dúbia e inútil, a honra, uma caceteação, o bom senso, uma fadiga”.

Por que escrevo sobre este tema hoje?

(Fotografia Romulo Braga)

Em Campos, hoje, podemos contar com a sorte de termos um pequeno grupo de moradores pela luta de sua história, e hoje me deparei com a fotografia deste sobrado nas esquinas da Rua do Ouvidor com Beira Rio, na página de um amigo que buscava estudantes de arquitetura para fazer o levantamento do edifício, e me veio à memória inúmeras histórias de família, dos antigos coronéis que escutei durante a minha infância.

(Fotografia Romulo Braga)

Neste sobrado citado acima funcionou um famoso “Bordel de Luxo”, durante uma época em que pelas ruas de nossa cidade circulavam usineiros, latifundiários e grandes políticos, eram outros tempos, e aquele não era o único bordel de luxo que funcionava em nossa cidade, na primeira metade do século XX, aqui tivemos famosas “Cafetinas” chamadas de “Madames”, outro muito famoso funcionou na Rua 7 de Setembro.

No ano de 1989, a Rede Globo estreou a novela “Pacto de Sangue” que se passava em Campos, no final do século XIX. A trama retratou com clareza dos bordéis de luxo aos famosos cabarés que aqui havia, com direito a muitas “Francesas” da baixada campista. A festa dos grandes Cabarés de luxo e dos prostíbulos em Campos durou até que em 1946, a pedido de Dona Santinha, o então presidente do Brasil Gaspar Dutra proíbe os jogos e os Cabarés em terras brasileiras.

Mas quem era dona Santinha?

(Dona Santinha Dutra)

Carmela Dutra foi a primeira dama do Brasil e a “real” presidente brasileira durante o Governo de seu marido Gaspar Dutra. Carmela, conhecida como “Dona Santinha”, era fervorosamente católica e tradicional, e uma mulher forte, casou-se com Dutra em segundas núpcias depois de ficar viúva e foi responsável pela proibição do jogo no Brasil e pela extinção do Partido Comunista Brasileiro.

E as mães de família?

São muitas as histórias de sofrimento das “Sinhazinhas” campistas, apesar de todo o conforto em que viviam, apesar de todas as aparências, eram as grandes vítimas, sofriam com doenças sexualmente transmissíveis trazidas pelos maridos, sofriam com o descaso dos maridos, sofriam com a falta do prazer.

Sobre o sobrado?

Um belo exemplar de arquitetura eclética campista, de uma época em que nossa cidade abrigou o maior conjunto arquitetônico eclético do Brasil, mas infelizmente perdemos o posto com tantas demolições e abandono.

(Fotografia Romulo Braga)

Segundo Rômulo Braga, o edifício está em fase de levantamento para a sua restauração. Sobre as histórias passadas naquele lugar, guardo comigo apenas o que escutei dos meus antepassados, mas que dá uma novela, ah isso dá!

Por Matheus Venancio – Publicitário e autor de A Enciclopédia Campista

1 COMENTÁRIO

  1. Prezado Matheus, obrigado pelo texto.

    Descobri a pouco tempo que o pai da BIsavó é o TRIsavô, o deste é o TETRAvô, pentavô, e assim por diante.

    Abraço.