Ao chegar a Campos, D. Pedro II recebeu uma chave da cidade de ouro

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Por Matheus Venancio – Publicitário e autor de A Enciclopédia Campista

 Nesta mesma noite em que escrevo este artigo, 24 de março de 2018, no 24 de março de 1847 chegava, em terras campistas, o maior brasileiro de todos os tempos, Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga, mas entre os brasileiros da época era conhecido como “O Magnânimo” ou “O Imperador” para nós brasileiros dos dias atuais “D.Pedro II”.

 A Espera:

 A guarda Imperial e a população campista esperavam para ver, pela primeira vez, o novo Imperador na frente da Igreja de São Francisco, na Rua Direita, atual Rua 13 de Maio, durante todo o dia. Mas no século XIX os meios de informações eram precários e não havia como prever com exatidão o horário que chegaria o monarca que, por ocasião da época de chuvas, teve que trocar de carruagem, pois a que trazia o imperador ficou atolada na lama, e o Pedro acabou passando a noite na fazenda do Queimado, bem ali onde hoje conhecemos como a Usina do Queimado na entrada da cidade.

A Rua Direita na primeira metade do século XIX e a Igreja de São Francisco - Coleção Imperatriz Theresa Christina do Brasil / Boklau
A Rua Direita na primeira metade do século XIX e a Igreja de São Francisco – Coleção Imperatriz Theresa Christina do Brasil / Boklau

 A Chegada:

 No dia 25 a cidade estava em festa para receber o Imperador, desfile das guardas imperiais, bandeiras pelas janelas das casas e bandeiras pelas ruas.

O Jovem Imperador Pedro II do Brasil
O Jovem Imperador Pedro II do Brasil

 Como era a Semana Santa campista no século XIX:

 A Semana Santa, até o início do século XX, era o evento mais importante da Igreja. Hoje os cristãos celebram o Natal com ceias e reuniões familiares, mas, durante o século XIX, o Natal era celebrado como “O dia de ação de Graças”, onde as senhoras das casas faziam um grande almoço ao ar livre e reunia todos os escravos à mesa. Imagino que, na mente de muitas senhoras, era o dia de pagar todos os pecados cometidos durante o ano e agradecer pelas graças recebidas.

 O ritual da Semana Santa era celebrado por todos os campistas que, semanas antes, faziam pedidos nas livrarias e vendas da cidade para comprar o famoso livrinho de orações em latim e português. Eu fecho os olhos e posso imaginar aquela pequena cidade em festa.

 Vale lembrar que durante esta visita o Imperador tinha apenas 21 anos de idade, e poucos anos como Imperador do Brasil, quando, em 23 de julho de 1840, foi declarado maior de idade aos 14 anos e aclamado, coroado e consagrado em 18 de julho de 1841.

O Imperador aos 14 anos de idade retratado no Palácio Imperial da Quinta da Boa Vista - Rio de Janeiro
O Imperador aos 14 anos de idade retratado no Palácio Imperial da Quinta da Boa Vista – Rio de Janeiro

O jovem celebrou, na matriz de São salvador, um ato pouco conhecido atualmente e que só vemos no vaticano pela televisão, a famosa cerimônia do lava-pés, lavando os pés de 12 pobres da cidade, refazendo, assim, o mesmo ato descrito na bíblia,  quando Jesus, a sós com os doze Apóstolos, e não o acompanhavam nem Maria, sua mãe, nem as santas mulheres e, segundo o relato de São João, no começo, num gesto carregado de significado, Jesus lava os pés dos seus discípulos, dando assim um exemplo humilde de serviço. O fato descrito acima representava não somente a fé, mas também a união da monarquia brasileira à Igreja e ao Estado que  estavam associados pelo padroado que instituía o catolicismo como a religião oficial do Brasil, e os padres e bispos eram trabalhadores públicos, pagos pelo Estado e pelo beneplácito, que determinava que os bispos escolhidos pelo papa só seriam efetivados no cargo mediante a aprovação de Dom Pedro II.

O Papa Francisco na cerimônia do Lava-pés no Vaticano
O Papa Francisco na cerimônia do Lava-pés no Vaticano

 O monarca assistiu à procissão da varanda do Solar da Lagoa Dourada, atual Liceu de Humanidades, e também à procissão da varanda da casa da senhora Gomes Barroso, onde tomou o chá da tarde e logo seguiu para o grande baile na fazenda do Becco, atual Asilo do Carmo, e segundo relatos na mesma semana, o jovem foi ao Teatro São Salvador mais de uma vez, aquele era o mais badalado teatro da cidade, muitos anos antes do Trianon.

O Antigo Teatro São Salvador em Campos
O Antigo Teatro São Salvador em Campos

Hospedado no Palacete do Barão de Muriaé, atual Corpo de Bombeiros, o Imperador e a sua comitiva pegou um barco no “Porto da Lancha” que ficava bem ali na frente para o Solar da Baronesa de Muriaé.

Agora a pergunta: Ficou curioso pelo fato de haver portos na cidade?

Campos contava com mais de 10 portos, e o fato curioso é que os portos eram nomeados pelo nome de quem vivia mais próximo, pela rua ou pelo que acontecia no local.

 Os portos do Rio Paraíba:

Porto do Ingá na primeira metade do século XX
Porto do Ingá na primeira metade do século XX

1- Porto da Lancha: O porto preferido das lavadeiras;

2- Porto de Anna Maria: ficava de frente para o Palacete da fazendeira Anna Maria da Conceição Teixeira;

3- Porto das Pedras: ficava na frente da Rua Barão do Amazonas e ali havia desembarque de pedras;

4- Porto do Ingá: Ficava  de frente para a antiga Santa Casa e tinha este nome pois ali haviam grandes pés de ingá; 

5- Porto da Cadeia: ficava de frente a praça de São Salvador, de onde havia uma cadeia como a que hoje podemos ver na cidade de São João da Barra. 

6- Porto Grande: ficava de frente para a Rua Direita, atual Rua 13 de Maio.

7- Porto do Pelourinho, ou “do Lourenço”: havia um trapiche de Lourenço José de Araújo e, também, um pelourinho.

8- Porto da Banca ou porto de José Silva: Ficava de frente à Rua do Rosário e era assim chamado, pois havia uma feirinha de verduras na Pracinha do Rosário e, também, havia a venda do Senhor José.

O Antigo Porto do Rosário
O Antigo Porto do Rosário
O antigo trapiche, ainda de pé em 1943
O antigo trapiche, ainda de pé em 1943

 Havia ainda o Porto da Lapa, Porto das Vacas, Porto do Amorim, Porto do Genipapo (pelos pés de genipapo), Porto da Jaca (claro que na frente da famosa Rua da Jaca, atual Voluntários da Pátria) entre outros portos.

O Antigo Porto da Lapa no início do século XX
O Antigo Porto da Lapa no início do século XX
A Galeota Imperial - Atualmente no Rio de Janeiro
A Galeota Imperial – Atualmente no Rio de Janeiro

 O imperador seguiu para uma noite na cidade de São João da barra, em sua galeota imperial que hoje está em perfeito estado no museu nacional do Rio de Janeiro. Já imaginou que pompa um imperador navegando pelas águas do Rio Paraíba do Sul em uma galeota?

 O imperador ficou em campos até a primeira quinzena de abril, e agraciou muitos campistas com os títulos de barão, visconde, comendador, cavaleiros, oficiais, coronéis, fidalgos, damas do palácio, entre outros títulos do Brasil Império.

 Sempre podemos aprender com a história e fazer um futuro melhor em nossa cidade. Aquela Campos do século XIX ficou para a história, assim como a primeira vinda de Pedro II entrou para a Enciclopédia Campista, mas, quem sabe em um futuro próximo, não poderemos resgatar o nosso Paraíba do Sul, voltar a torná-lo navegável e resgatar antigas tradições?

Uma feliz Semana Santa amigos,

 Matheus Venancio

2 Comentarios

  1. Creio que esteja faltando uma homenagem a Pedro II em nossa cidade. Pelo amor que ele tinha por Campos, merece ser homenageado. A Avenida 15 de Novembro, antes da República, era Av. Pedro II.