Campos, a cidade dos Palacetes

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Palacetes

“pa·la·ce·te: Palácio pequeno, casa grande, requintada e/ou aparatosa”

Praça São Salvador
– Praça São Salvador

Em Campos conhecemos como “palacete” o edifício do Liceu de humanidades de Campos, o Solar da Lagoa Dourada, como era conhecido no século XIX. Hoje em dia é quase impossível imaginar como foi a nossa cidade no século XIX, com este artigo voltaremos no tempo e vamos percorrer alguns destes lugares perdidos.

A casa da cidade: Os Palacetes urbanos do século XIX

(O Palacete da Lagoa Dourada
O Palacete da Lagoa Dourada

Os palacetes urbanos serviam de moradia para as épocas em que a safra da cana acabava. Quando isso acontecia, os solares rurais eram fechados, seus móveis cobertos, e a vida voltava para a cidade. Era a época dos grandes bailes, das Companhias teatrais, dos eventos religiosos na cidade de Campos.

Campos ocupava um quarto do território da província no século XIX, e era um dos mercados mais importantes e modernos do atual estado do Rio de Janeiro. Havia cerca de 12 jornais na cidade, ferrovias, eletricidade, bonde, telefone, gás, serviço de água e esgoto, teatros, além de contar com o Liceu de Humanidades, inaugurado em 1844 com a presença do Imperador; a Escola Agrícola, o Banco de Campos, inaugurado em 1863; o Banco Comercial e Hipotecário de Campos, inaugurado em 1871; 32 mil escravos em 1880, 56 mil livres e 10 mil ingênuos. Campos chegou aos últimos anos do Império brasileiro como a capital do açúcar brasileiro e ainda como a capital do café.

Safra no Airises
Safra no Airises

A presença de uma classe diretamente ligada ao governo Imperial do Brasil estimulava altamente a economia local, podíamos contar, por exemplo, com a única mulher de todo o Império agraciada com uma honraria Imperial, com um ministro da Agricultura, Comércio e Obras Públicas do império, com uma fortuna estimada em 170 mil Libras, como foi o caso de Saturnino Braga, e ainda com o café, sim, Campos foi a maior produtora de café do império, superando Minas Gerais e o Espírito Santo no final do século XIX.

Ainda podemos encontrar vestígios desta época pelas antigas construções da cidade. O atual Corpo de Bombeiros na beira rio, por exemplo, serviu de residência para os barões de Muriaé e a Viscondessa viúva, e chegou a abrigar a família Imperial brasileira nos anos de 1847, 1875 e 1878. Outro belo exemplar pouco conhecido por muitos, o palacete Saturnino Braga, na praça da república, foi um dos mais luxuosos de sua época.

Antigo Palacete S. Braga
Antigo Palacete S. Braga

Um edifício em ruínas na praça do rosário que abrigou durante anos o hotel Flávio, antes do seu abandono e antes de se transformar em um hotel que foi propriedade do Barão de Itaóca, na rua Barão do Amazonas, onde atualmente funciona o Hotel Amazonas e serviu de  inspiração para o livro “ O menino e o Palacete”, foi originalmente a residência dos Viscondes de Pirapetinga e, na mesma rua, havia o palacete dos Barões do São Fidélis, e o Palace Hotel, na beira rio, foi propriedade do Comendador José Cardozo Moreira.

Atual palace Hotel
Atual palace Hotel

O Visconde de Itabapuana vivia onde atualmente funciona a Loja Maçônica Progresso, em um belo palacete da rua Joaquin Nabuco número 24. Na mesma região, o belo palacete da Lagoa Dourada dos barões de mesmo nome, atualmente abriga o Liceu de Humanidades.

Nos fundos da antiga catedral, havia um belo palacete com todo luxo e requinte da época, de propriedade do Visconde de São Sebastião, vizinhos ainda estavam o palacete da Viscondessa de São Francisco, na Rua 13, bem pertinho da igreja de mesmo nome, ainda na mesma rua o Palacete do Barão de Guarulhos e, também, os Barões de Abadia onde atualmente está o edifício da Ampla. Na mesma rua ainda havia o famoso solar de Mathias José de Freitas Arantes, construído para sua amada esposa, filha de Saturnino Braga, e tristemente demolido no ano de 2012, foi um dos últimos exemplares de uma grande época.

Antigo Hotel Flávio
Antigo Hotel Flávio

Na praça principal, o palacete do Visconde de Araruama, atual Museu de Campos, que ainda tinha entre os seus vizinhos o Barão de Miranda e os Barões da Boa Viagem em um lindo palacete demolido para a construção do edifício dos correios nos anos 40. Pela Rua 7, um belo exemplar colonial em meio a uma grande chácara abrigava o solar dos Viscondes de Santa Rita onde, pela janela, Anita viu pela primeira vez o grande amor de sua vida, Nilo Peçanha.

Rua 7 já no século XX
Rua 7 já no século XX

Nesta lista citada acima dos grandes palacetes campistas, ainda de pé nos anos 40, a minha avó contava sobre a beleza de cada um, com estátuas na fachada, abóbodas, telhas metálicas, arcos, no mais alto requinte europeu.

A Praça com o antigo edifício dos Correios
A Praça com o antigo edifício dos Correios

Ainda havia o famoso solar de dona Ana Pimenta, onde ocorreu um dos maiores crimes de Campos no século XIX. Dona Ana Joaquina Carneiro Pimenta, conhecida por sua grande bondade e generosidade entre a sociedade campista, mantinha o seu palacete situado na Rua Formosa, ali bem pertinho do atual colégio Eucarístico, sempre aberto para alimentar os pobres da cidade. Nas portas coloniais, sempre havia dois escravos com bandejas de prata segurando alimentos para os desfavorecidos. Dona Ana estava relacionada aos mais ricos da cidade por parentesco e frequentava os grandes salões campistas; muito devota, promovia as festas católicas junto às damas da sociedade. Entre as paredes de seu palacete, uma história triste de maltrato aos escravos levou à sua própria morte.

Muitos dos grandes palacetes de nossa cidade não sobreviveram ao tempo, Campos viu a demolição de 70% de todo o seu patrimônio entre os anos 50 e 70 com as novas ideias modernistas. Atualmente, com o aumento da qualidade de vida, temos a sorte de perguntar aos nossos amigos de 90, 95 e até 100 anos sobre esta antiga cidade que apenas conhecemos por fotografias.

Faça isso, guarde em sua memória e conte para as futuras gerações.

Palacetes

Por Matheus Venancio – Publicitário e autor de A Enciclopédia Campista

2 Comentarios

  1. Parabéns pela matéria, muito bem ilustrada e que nos proporcionou ampliar os conhecimento sobre a nossa Campos dos Goytacazes.
    Acredito que os riscos oferecidos à população por prédios abandonados e tombados pelo patrimônio histórico poderiam ser minimizados por sua conservação, pelos herdeiros ou pelo Poder Público. Entretanto, na impossibilidade destas duas abordagens, que se autorizasse a demolição, e que fosse mantida, obrigatoriamente e em lugar de destaque na nova construção, uma maquete que possibilitasse o conhecimento do passado de glória do qual aquele local foi palco.

  2. Estou muito satisfeito em conhecer um pouco mais sobre a cidade em que nasci e também em saber um pouco mais sobre minha tataravó dona Ana Pimenta, a qual somente tinha conhecimento através das histórias contadas pelo meu avô e ainda hoje pela minha mãe. Gostaria de obter se possível mais informações para enriquecer o conhecimento de minha árvore genealógica.