A independência do Brasil e o início de uma identidade “campista”

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A Princesa Leopoldina de Habsburgo, na condição de Regente do Reino do Brasil durante a ausência de seu marido, o Príncipe Dom Pedro, que estava em São Paulo, assinou o decreto que oficializava a independência do Reino do Brasil

Por Matheus Venancio – Publicitário e autor de A Enciclopédia Campista

A influência de São Jorge na cultura portuguesa acompanhou a fundação do Brasil, um dos santos mais venerados até os dias de hoje, no Rio de Janeiro e em Campos, a terra de São Salvador, que também teve como principal tradição cristã o famoso “Jorge”.

A festa do Corpo de Deos chegou à nossa cidade com os primeiros colonizadores. Em Portugal, teve início no reinado de D. Afonso III, ainda sem a procissão que viria a incorporar-se no tempo de D. João I, já com a presença de um cavaleiro personificando o padroeiro do reino, São Jorge, que segundo os portugueses foi o responsável pela conquista de Lisboa no ano de 1147 e, em 1837, o santo passou a ser transportado na procissão do Corpus Christi (Corpo de Deos, como era chamado).

Um cavaleiro personificava o padroeiro do reino, São Jorge
Um cavaleiro personificava o padroeiro do reino, São Jorge

 A procissão, que se mantém até os dias de hoje em Portugal, é uma solenidade muito respeitada e participada, onde as figuras mais representativas estão presentes. Na época da monarquia de Portugal, cabia ao rei e aos príncipes segurar as varas do pálio debaixo do qual o patriarca conduzia a custódia na cidade de Lisboa e, também, na outra capital, Rio de Janeiro.

 Em Campos não era diferente. Segundo narrou Julio Feydit, os cavalos do Sargento-Mor Francisco Manhães que, no ano de 1811, tinha os melhores cavalos para as festas do Corpo de Deos e a procissão de São Jorge, e para qualquer um participar de tal evento seria uma grande honra.

 O Santo saía devidamente ornamentado da Catedral de Campos para a grande festa, na porta esperava um cavalo branco todo enfeitado e o santo era preso à sua cela.

Todos os funcionários da câmara, dos dois batalhões e de todos os órgãos públicos eram obrigados a seguir a procissão devidamente uniformizados, do Sargento Mor ao porteiro.

Seguiam o Santo, os cavaleiros, seguidos dos oficiais da Câmara e do estandarte, que era levado pelo procurador real, seguido das principais famílias campistas.

Vinham todos os oficiais militares do município, que era muito maior do que os dias atuais. Vinham de São Félix, atual Santo Antônio de Pádua e, também, de todas as outras freguesias campistas.

O Santo seguia pela Rua do Sacramento, entrava na 13 de Maio e voltava à praça para ficar exposto na casa da Câmara, que ficava em cima da cadeia, de frente para a antiga Santa Casa de Misericórdia, e de lá partia de volta para a Catedral.

 No ano de 1828, veio uma lei proibindo alguns gastos e, por esse motivo, acabou a festa de São Jorge em Campos. Pela  pela falta de notícias publicadas nos jornais da época, podemos imaginar que todo o processo foi uma lenta transição do Império Português para o sentido de ser brasileiro, com novos costumes, novas festas populares e a formação do Império do Brasil, e o início do que conhecemos hoje como a República do Brasil.

Em Campos, já havia a adoração de São Salvador, e imagino que com o rompimento com o Império Português e o surgimento de um novo Império, com um novo imperador, e o orgulho de ser “brasileiro” e “campista”, São Salvador passou a ser o “Santo Campista”, tirando o lugar do antigo “Santo Português”.

 Assim como a lei veio no ano de 1828, a independência do Brasil de fato só foi reconhecida por Portugal em 29 de agosto de 1825 e, com mediação inglesa, o Reino de Portugal e o Império do Brasil assinaram o Tratado do Rio de Janeiro que reconhecia a Independência do Império do Brasil dos Reinos de Portugal e Algarves, porém, Dom João VI teria para si, honorificamente, o título de Imperador do Brasil, assim como seu filho Dom Pedro I que manteria o título tanto “de jure” quanto “de facto”. O tratado do Rio de Janeiro abriu o caminho para as outras nações europeias reconhecerem a independência brasileira. A independência já era reconhecida pelos Estados Unidos e México e após Portugal, Inglaterra, Áustria, França, Suécia, Holanda e Prússia a reconheceram.

 No ano de 1822, no dia 2 de setembro, a Princesa Leopoldina de Habsburgo, na condição de Regente do Reino do Brasil durante a ausência de seu marido, o Príncipe Dom Pedro, que estava em São Paulo, assinou o decreto que oficializava a independência do Reino do Brasil que viria a se tornar um Império no dia 12 de Outubro do mesmo ano.

O Príncipe D. Pedro I e a Princesa Leopoldina de Habsburgo
O Príncipe D. Pedro I e a Princesa Leopoldina de Habsburgo

 O antes e o depois da independência não foi nada fácil para os portugueses que viviam em Campos, havia muitas brigas, proibições de entrada em estabelecimentos e, no pós independência, a obrigação da cidadania brasileira aos portugueses. Muitas tradições portuguesas continuam até os dias de hoje em nossa cidade, mas podemos imaginar que na época a ideia de ter a maior festa local para um santo que era o patrono do reino de Portugal, não seria tolerado pelos campistas.

 Em Portugal, ainda há a luta entre o cavaleiro vestido de São Jorge e o dragão, e durante a procissão ainda há o famoso boi Bento, uma versão portuguesa do nosso boi pintadinho, sendo a festa mais tradicional daquele país na cidade de Monção. Em nossa cidade, podemos considerar os primeiros anos após 1822 como o surgimento de nossa cultura própria e de nosso orgulho de sermos campistas!

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