Nilo – O racismo, o amor e a sua obra

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Por Matheus Venancio – Publicitário e autor de A Enciclopédia Campista

Segundo historiadores, o racismo no Brasil tem o seu início com a abolição da escravidão e a igualdade entre todos os brasileiros, junto ao declínio da cana de açúcar nas regiões norte e sudeste do Brasil. Entre os historiadores apoiadores de tal idéia está Gilberto Freyre, que afirma que a alma nacional está na antiga e colonial mestiça cultura Luso-Afro-Brasileira.

Nilo Peçanha nasceu nesta mesma época, no ano de 1867, filho de Sebastião de Sousa Peçanha “Sebastião da Padaria” e de Joaquina Anália de Sá Freire, uma moça de família campista com importante influência política. Nilo cresceu em uma época de grandes transformações no mundo, mas sofreu na pele a hostilidade dos salões da aristocracia campista.

Os pais de Nilo
Os pais de Nilo

Tanto racismo sofrido por Nilo ajudou a formar o seu caráter e a fortalecer ainda mais as suas ideias democráticas, segundo Brígido Tinoco, Nilo estudou com afinco ali mesmo no balcão da padaria do pai: “O balcão da padaria foi um símbolo” (Brígido Tinoco).

Nilo no Liceu
Nilo no Liceu

Nilo entrou para o Liceu de Humanidades de Campos, inaugurado em 13 de Janeiro de 1884, através dos esforços do deputado Manuel Rodrigues Peixoto, entre os seus colegas de turma segundo Celso Peçanha estavam: Azevedo Cruz, Benedito Barroso, Manuel Moll, José Moll, Pedro Nolasco Pereira da Cunha, Alexandre Cardoso, Teófilo Crisanto de Faria, José Pelinca, Alcebíades e Cícero Peçanha, Augusto de Assis Andrade, Wladimiro Peixoto, e Álvaro Grain.

A turma era dividida entre Liberais e conservadores e haviam os jornais “O Liberal e O Diáfano”.

Nilo estava no grupo dos Liberais,  entre aqueles que queriam mudar o país.

Nilo logo se mudou para a capital Imperial, onde escreveu a famosa frase: “A república e a abolição são irmãs gêmeas. Precisamos desde já organizar socialmente o nosso povo”.

Nilo e o racismo:

Nilo Peçanha foi freqüentemente ridicularizado na imprensa em charges e anedotas que se referiam à cor da sua pele. Durante sua juventude, a elite social de Campos dos Goytacazes chamava-o de “o mestiço do Morro do Coco”.

Em 1921, quando concorreu a presidência da república como candidato de oposição, cartas atribuídas falsamente ao candidato governista, Artur Bernardes, foram publicadas na imprensa e causaram uma crise política pois insultavam o ex-presidente Marechal Hermes da Fonseca, representante dos militares, e também Nilo Peçanha, outro ex-presidente, que era xingado de mulato.

Nilo nunca teve nada muito fácil durante a sua vida, o que o diga a sua história de amor com a sua “Anita” que depois de muita guerra familiar entre os Ribeiro de Castro, preconceito entre a sociedade campista, Anita resolveu partir para o Rio de Janeiro e, no ano de 1895, às escondidas, casa-se com Nilo Peçanha.

Nilo, Anita, e a troca de olhares

Senhora Anita Peçanha
Senhora Anita Peçanha

Nilo já era um político promissor e, em um belo dia, sentado na Estação da Leopoldina, conversando com o Coronel Drummond aguardando o trem para o Rio quando vê passar duas moças acompanhadas de seus pais e da Viscondessa de Santa Rita.

Ana, mais conhecida como Anita e a irmã Maria José, os pais Dr. João Belisário Soares de Souza e D. Ana Raquel Ribeiro de Castro, junto às filhas Ana, Maria e Clotilde que vinha acompanhada de sua sogra a Viscondessa.

Foi amor a primeira vista por parte de Nilo, Ana, que não havia reparado em Nilo, logo recebeu uma pergunta de sua irmã Maria: Sabe quem é aquele que está com o coronel? É o Deputado Nilo Peçanha, escritor dos artigos que você lê no Monitor Campista.

Segundo Brígido Tinoco, anos antes Nilo já cortejava Ana sem que ela soubesse, ele costumava passear a cavalo pela chácara do Moinho na antiga Rua da Constituição, em Campos, onde vivia Ana que sempre estava na janela, e um dia Nilo a chamou de “menina bonita” e recebeu uma goiaba podre contra o seu peito.

Futuramente veio o romance com a troca de cartas, e, logo descoberto pela família de Ana, sofreu todo o tipo de represálias pela cor da pele de Nilo, as desculpas: Nilo não era católico, a política de Nilo não seguia a Santa Sé, Nilo era da Maçonaria.

Anita não só teve pessoas na família no contra, contou com o apoio do seu primo o Barão de Miracema, do seu pai, e na sua literatura modernista francesa.

O final desta história já sabemos, Nilo e Anita se casaram e viverem felizes, até a morte de Nilo, deixando Anita viúva.

Nilo e o Povo

Nilo no Palácio Rio Negro em Petrópolis
Nilo no Palácio Rio Negro em Petrópolis

A república brasileira nasceu corrupta e Nilo na capital representava a voz do povo, a voz dos ex escravos que sofreram nas mãos dos senhores, em uma época onde a política era totalmente voltada para as classes dominantes, em uma época onde apenas ganhavam as eleições por indicação ou pela compra de votos. Nilo acabou sendo chamado muitas vezes de “demagogo” por defender o povo.

Campos, durante a juventude de Nilo foi um dos cenários mais importantes da batalha do povo, onde grupos abolicionistas arriscavam a vida pela liberdade, queimavam fazendas inteiras, terra de Carlos Lacerda e Patrocínio.

Nilo, governador de um estado falido, Presidente do Brasil, e o racismo

No ano de 1903, Nilo é eleito presidente do Estado do Rio tomando posse no dia 31 de dezembro. Nilo assumiu um estado falido, assim como vemos o Estado do Rio nos dias atuais, segundo nos narra Waldir Pinto de Carvalho em seu livro – “Gente que é nome de rua” volume I. Em uma conversa, Bocaiúva diz a Nilo: “Está arruinado o Estado. Em Londres se encontra um comissário enviado por seu antecessor para negociar um empréstimo urgente e a qualquer preço.” e Nilo responde: “A terra é o maior banqueiro do Brasil! Nem mais empréstimos, nem mais impostos!

Ainda segundo Waldir, Nilo como governador decretou medidas severas, reduzindo os funcionários ao mínimo, seus salários e o próprio, diminuiu o número de deputados, criou cargos de prefeitos, as professoras passaram a ser admitidas apenas por concurso público, e juntou todas as secretarias em uma só. O aspecto moral e econômico de Nilo serviu de inspiração ao partido Republicano, e abriu as portas do Catete para Nilo.

Após a morte de Afonso Pena, seu então vice-presidente Nilo Peçanha, assumiu a presidência e governou o país pelo período de 1909 a 1910.

Em seu governo, Nilo Peçanha criou o Serviço de Proteção aos Índios (SPI) que notabilizou o General Candido Rondon, órgão que posteriormente iria resultar na FUNAI (Fundação Nacional do Índio).

Nilo, filho de um padeiro e de uma dama das famílias mais importantes de Campos, iniciara sua carreira como Presidente do Rio de Janeiro, de 1903 a 1906, sucedendo a Quintino Bocaiúva, que foi seu padrinho de casamento.

Nilo teve um grande apoio popular, retornou ao senado em 1910 e, dois anos depois, foi novamente eleito presidente do Estado do Rio de Janeiro, renunciando ao cargo em 1917 para assumir o Ministério das Relações Exteriores, e já em 1918 foi novamente eleito senador.

Durante a vida política de Nilo no início do século XX em meio a uma república racista, Nilo sofreu todo o tipo de preconceito. Mesmo depois de tornar-se presidente da república.

Segundo o historiador Alberto da Costa e Silva, Nilo Peçanha foi apenas um dos quatro presidentes brasileiros que esconderam os seus ancestrais africanos, sendo os outros Campos Sales, Rodrigues Alves e Washington Luís.

Nilo além de não ser branco, destacou-se na época por obras importantes  como a implementação de redes de saneamento básico na Baixada Fluminense, a criação do Ministério da Agricultura, Comércio e Indústria.

Em Campos Nilo entregou o Jardim São Benedito (Praça Nilo Peçanha) e uma escola com ares modernos no edifício onde atualmente funciona a ACL, além do obelisco da Beira Rio.

Nilo e a Escola em Campos

Aquele lugar ainda era chamado de “praça dos negros” (1870 – Local de enforcamento de escravos –  Nesta praça foram enforcados 5 escravos em 9 de outubro de 1873, 3 pelo famoso crime da família “Barroso Siqueira”, e 2 por enterrar o fazendeiro José Joaquim de Almeida Pinto morto por sua escrava e amante) quando as novas idéias do início do novo século circulavam por algumas mentes da cidade durante a “Belle époque” influenciados pelo “modernismo”.

A Campos do século XIX foi palco de inúmeras epidemias, entre elas a “cholera morbus” que levou milhares de vidas, a primeira epidemia veio em 1855, seguida de uma nova grande epidemia em 1867, voltando os velhos problemas com a grande enchente de 1906.

No início do século XX aquele fantasma do passado, agora vivendo lá pelas bandas do Caju ainda assustava e muito aos campistas, que passaram a discutir novas idéias higienistas e de reformas sanitárias:

“Em 1911, a cidade sediou a 4ª Conferência Açucareira, reunindo agricultores e industriais de diversos estados, com a presença do ministro da agricultura Pedro de Toledo e do presidente do Estado do Rio de Janeiro Oliveira Botelho. Nesta conferência foi decidida a criação de um imposto de 2,5% sobre o açúcar exportado, com o objetivo de compor um fundo a ser utilizado exclusivamente para o saneamento da cidade.” (Rodrigo Rosselini Julio Rodrigues)

“A Princesa do Parayba”, assim foi chamada Campos pelo colunista Max, do Monitor Campista, em 1911, para divulgar as reformas de saneamento da cidade, tais obras contaram com o alargamento e o calçamento de avenidas, a ampliação e o melhoramento das redes de esgoto, novas praças e um novo jardim.

No meio de tanta novidade; Uma escola ao ar livre fez parte do projeto dos melhoramentos da cidade.

Esta nova modalidade educacional, divulgada e estudada por vários médicos higienistas na Europa, defendia um maior contato entre o aluno e a natureza, com banhos de sol, atividades ao ar livre e mais espaços abertos, evitando assim novas epidemias.

“No ano de 1905 em Berlin, na Alemanha, houve a primeira experiência de escola ao ar livre, em 1907 na Inglaterra, e, em 1908, mais três, em 1910 na Suíça e França após a primeira guerra mundial e o surto de Tuberculose, seguidas de Portugal, Espanha e Estados Unidos.” (Rodrigo Rosselini Julio Rodrigues)

Influenciado pelas ideias europeias, o então presidente Nilo Peçanha que acabara de chegar do velho continente, publicando as suas idéias no livro “Impressões da Europa” (1913), assinou um decreto onde destacava o dever do estado em cuidar da melhoria do ensino destacando o envolvimento intelectual, moral e físico do aluno com lugares mais alegres, espaçosos e iluminados.

“Fica creada na cidade de Campos, uma escola do typo ao “Ar Livre”, com a organização das escolas urbanas, porém, com um horário especial, que attenda ao ensino e jogos ao ar livre, conversações hygienicas e scientificas e trabalhos manuaes, de accôrdo com as instrucções que o Secretario Geral do Estado expedirá (ibid., p. 36).”

A Escola ao Ar Livre Presidente Wenceslau Bráz -1916

“Fica creada na cidade de Campos, uma escola do typo ao 'Ar Livre'"
“Fica creada na cidade de Campos, uma escola do typo ao ‘Ar Livre'”

Para a criação da escola foi feita a reforma total do jardim São Benedito, com a plantação de árvores, a construção de dois lagos artificiais com ponte e chafariz, uma caixa d’água com a finalidade de irrigar o jardim, e o pavilhão da escola em estilo Neoclássico com grandes aberturas para receber a iluminação solar durante o dia, no seu interior sem paredes, móveis soltos para facilitar o seu transporte para diversos pontos do jardim.

“Nas paredes do fundo ficavam expostos os quadros parietais de história natural produzidos pela empresa francesa Maison Deyrolle, introduzidos no Brasil pelo médico e educador Menezes Vieira, diretor do Pedagogium, e publicados pelo Museu Escolar Brasileiro. Na parte da frente ficava a mesa da professora sobre um estrado, diante de um enorme vitral que tomava toda a dimensão da parede, contribuindo para a iluminação adequada, tendo ao lado o quadro negro. Na parede atrás da professora, ao lado do vitral, eram também afixados diversos quadros parietais.” (Rodrigo Rosselini Julio Rodrigues)

A escola ao ar livre de Campos teve como primeira diretora a professora Coris Coli Rangel até o ano de 1923 quando ocupou o seu lugar a professora Anna Soares de Freitas.

A escola transformou o bairro ao redor do jardim que passou a ser habitado por uma nova classe urbana que estava em formação no início do século, os profissionais liberais, além das novas residências urbanas para as famílias dos fazendeiros como “Siño Cordeito” na esquina da rua do Ouvidor com Saldanha Marinho, “Chico Boa Morte” – Senhor Francisco Ribeiro Venancio, Dona Conceição Quintanilha, Dona Cacida e o Senhor Lenício Cruz, Senhor Roberto Moll, o Senhor João Neto, Dona Leda e Dulce Freitas, Dona Zaira e Peri Moreira, além de modificar todo o bairro, a escola ainda serviu como um exemplo de modernidade pedagógica colocando Campos entre as grandes cidades do mundo com este modelo de educação, funcionou até o ano de 1931 quando foi transformada em Grupo Escolar (1931-1943).

Nilo e o Mundo

Litografia de Nilo - Museu Metropolitan NY
Litografia de Nilo – Museu Metropolitan NY

Quem diria algum dia, que aquele menino, filho de um padeiro de Morro do Coco, que estudou no balcão, teria um quadro pintado por Auguste Petit, ou que estaria entre os arquivos do Metropolitan Museum em Nova York em uma litografia de 1910 pela The Lauer & Suter? Ou mesmo que este seria o presidente do país mais importante da América do Sul? Ou que teria um Palacete na praia de Icaraí em Niterói e uma grande fazenda em Campos, a Loanda, e ainda uma em Itaipava? Quem diria que chegaria a ser matéria do The New York Times? Quem diria? Ou que passaria verões na costa azul francesa?

Nilo venceu o racismo, lutou, estudou e chegou onde chegou, ganhou o mundo sendo reconhecido como um dos grandes políticos de sua época.

1 COMENTÁRIO

  1. Boa tarde!

    Minha filha precisava fazer uma trabalho, com o tema “biografia”, inicialmente “Bill Gates” era a escolha, mas perguntei-lhe qual razão de se pesquisar um “Ícone” americano, já que temos tantos outros, se não iguais ou até mesmo mais importantes?
    Minha filha me indagou com ares de espanto, contra-argumentando – Quem??? Respondi então se sabia quem era “Nilo Procópio Peçanha”! “Algum parente?” – respondeu ela! Disse apenas que pesquisasse na internet. Depois de um tempo, voltou e me perguntou, quase afirmando! – “Ele era parente nosso, mesmo!??” Disse que ele era apenas um possível nosso ancestral direto! – Uma história longa de Família.
    Ficou impressionada, pois temos em nossa história familiar, aquele que foi o 1º Presidente afrodescendente, eleito democraticamente, emergido de família pobre, que sofreu incontáveis preconceitos, etc. Esta também foi a resposta dada à sua Professora, quando esta perguntou da razão da escolha, ao qual deixou-a espantada, e sem palavras!
    Em uma ocasião minha filha foi chamada de racista, mas imediatamente, respondeu com uma pergunta – Como posso ser racista, preconceituosa se sou também descendente de africanos!??? E você pode afirmar com certeza que não tem nenhum sangue africano?”
    Como professor sempre afirmo, antes de ser preconceituoso, racista, homofóbico, etc, estude a história de sua família, e ao se inteirar dela, verá o quanto ignorante é!
    Obrigado por compartilhar com todos, esta história, pois muitos exaltaram a eleição de OBAMA, mas desconhecem, que antes no Brasil, um “mulato”, já lutava pela igualdade racial no nosso país miscigenado!
    E mesmo que não pertencente a esta “Família”, teria muito orgulho de saber desta biografia, ao qual podemos ver que existe luta pela igualdade de direito a muito tempo, e cabe a nós transformar definitivamente este país em uma “Pátria” verdadeiramente para “Todos”!
    Meu muito obrigado!