Feito em Campos, servido nos jantares imperiais!

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Por Matheus Venancio – Publicitário e autor de A Enciclopédia Campista

Goiabada Cascão de CamposOs festejos de São Salvador, ou Festejos de Cristo, ou do Santíssimo é um dos eventos mais antigos celebrados em nossa cidade. Segundo historiadores, o ato de celebrar Jesus Cristo como o padroeiro local teve o seu início por volta de 1652.

Durante a minha infância, o evento significava duas coisas: o final das férias escolares e uma ótima época para comer doces; e por falar em doces, repetindo, “doces” era uma das preferências da nossa última família Imperial, incluindo um docinho campista.

A História da Goiabada:

A tradição dos doces brasileiros vem em sua maioria dos conventos portugueses. Era muito comum usar a clara do ovo para engomar o hábito das freiras, e sempre havia a grande pergunta: O que fazer com a sobra das gemas?

A resposta veio em forma de marmelada, quindim, ambrosia (a minha avó contava que a sua mãe, dona Inácia Salles, filha de portugueses, fazia uma de lamber os dedos), pudim, papo de anjo entre outros doces que aqui chegaram com os primeiros portugueses.

No Brasil esta tradição logo juntou-se a das quinteiras negras que, na mistura da cozinha das senzalas e da cozinha das sinhás, juntaram as frutas tropicais, o fubá, a abóbora e o cará.

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Nos tempos da antiga colônia, a goiabada, a cajuada, e o doce de abóbora já eram pratos nobres na culinária brasileira. No clássico da literatura colonial do Brasil, o livro “Tratado Descritivo do Brasil”, escrito por Gabriel Soares de Sousa, em 1587, e enviado a Filipe II da Espanha no intuito de oferecer à Coroa informações acerca da situação da colônia portuguesa, a nossa famosa Goiabada foi chamada de “araçaguaçu”. Além de escritor, Gabriel foi, também, proprietário de um engenho de açúcar. Era muito comum entre os imigrantes portugueses utilizarem a goiabada como substituto da marmelada portuguesa.

Em Campos a produção da famosa goiabada cascão foi tão famosa com suas doceiras pela baixada que até temos um bairro no distrito de Tocos chamado de “Goiaba” e pela mesma baixada campista havia uma fábrica de goiabadas que encantou a família Imperial.

O Menu do Imperador, e como ele ajudou na formação da culinária brasileira:

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Segundo o livro “Os Banquetes do Imperador”, o nosso monarca Pedro II amava doces, entre eles os favoritos eram: mães-bentas, suspiros e goiabada. Sim, a famosa goiabada campista!

O Imperador, apaixonado por artes, tinha o hábito de fotografar menus que durante o século XIX eram escritos em francês, a nossa “Canja de galinha”, por exemplo, era chamada de “Canja à la brésilienne” ou pelos funcionários do palácio da quinta “Sopa do Imperador”.

No último tópico do menu vinha: “ Dessert Complet” que significa: “sobremesa completa”, e neste momento entrava a goiabada.

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Para o Imperador, comida boa era a comida simples brasileira, os menus em francês e toda a sofisticação ficavam apenas para os jantares oficiais, e este ato do imperador de comer a comida “brasileira” ajudou na formação do que conhecemos hoje como comida típica. A famosa canja, por exemplo, na época era um dos pratos mais sofisticados, e atualmente um dos mais simples do Brasil.

Os chás da princesa:

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No século XIX, os hábitos eram bem diferentes. Segundo o professor Laurentino Gomes, almoçava-se às 10h, havia um chá entre as senhoras no meio da tarde, seguidos do jantar às 16h e uma pequena ceia às 20h, mas não se engane se com estes horários havia uma menor quantidade de comidas, muito pelo contrário, como diziam os amigos próximos da Princesa Imperial: “ela comia com os olhos”, deleitava-se com os alimentos e a própria princesa dizia: “regalei-me com os morangos”.

Era tradicional no Paço Isabel (atual palácio da Guanabara – sede do Governo do estado do Rio) o famoso chá da princesa, onde dona Isabel recebia as damas da corte para conversar, tocar piano, fazer orações e comer. O chá era composto por uma miscigenação da cultura gastronômica portuguesa, brasileira e europeia.

Ao longo do ano de 2014, o Museu Imperial organizou um evento chamado “O chá imperial”, onde a chef Joana Menescal recriava os pratos típicos oferecidos pela princesa. Durante a pesquisa, foram encontrados documentos onde a princesa citava o que mais gostava de comer, como a goiabada, compotas, pão-de-ló de laranja e alimentos típicos das senzalas. Vale lembrar que nos palácios imperiais do Brasil durante o segundo reinado, não trabalhavam escravos e sim assalariados, e a mistura africana entre os alimentos era muito bem aceita como a broa de milho.

No menu da princesa ainda havia o pudim de pão, fatias paridas, compota de goiaba ao creme, doce de figo do papai, pãezinhos da senzala, pataniscas de bacalhau, gelato de pitanga do Imperador (o preferido do Imperador), arroz doce da Imperatriz, queijo fresco, geleia de morangos do bosque, café coado, leite, chá de especiarias e sucos variados.

Em Campos, como a goiabada chegou à mesa dos senhores? E como foi parar na mesa Imperial?

Muito antes da princesa Isabel e da chegada da corte imperial ao Brasil com o seu bisavô D. João, o ato de comer frutas típicas em Campos já era comum, um hábito que não se modificou com a chegada da corte e os costumes mais sofisticados da era dos barões do açúcar. O motivo era claro, com o calor dos trópicos era muito difícil conservar os alimentos, e mais, com a formação do Império do Brasil, no ano de 1822, passou-se a evitar tradições portuguesas nas casas, o que criou uma comida tropical afrancesada.

Nas fazendas campistas, a cozinha era sempre administrada pelas “sinhás” e as escravas internas, Campos durante o século XIX ainda foi uma terra de imigrantes de todos os lados da Europa, e daí vem a mistura. Nos pomares dos solares, havia frutos para dar e vender, como jaca, carambola, laranja e goiaba, com este último fruto se podia fazer um doce e conservar durante todo o ano.

Em Campos e em suas fronteiras, a Goiabada logo se tornou um comércio. E até o início do século XX nós, campistas, fomos conhecidos no restante do estado como os Papa-goiabas!

Dois dos materiais mais tradicionais na produção da goiabada campista eram os caixotes de madeira e os tachos de cobre. Os tachos eram um dos produtos mais importantes na produção do doce, pois somente com os tachos a goiabada pode chegar ao “ponto”.

Em Campos ficou a grande tradição da goiabada cascão e em Minas a goiabada com queijo.

O Imperador visitou Campos algumas vezes junto com a Imperatriz, a primeira vez foi no ano de 1847, e a última no ano de 1883, dona Isabel veio no ano de 1868 e em todas estas visitas, uma das paradas mais importantes era a da fábrica de doces de goiaba de dona Júlia Moore.

Dona Júlia Moore foi a doceira mais famosa entre a alta sociedade campista do século XIX. Entre os seus clientes principais estava o Barão da Lagoa Dourada, que apresentou a fábrica ao Imperador. Em sua visita a Campos, durante um jantar na Fazenda do Limão, dona Isabel conheceu a Goiabada Cascão e a Goiabada Recheada. Na volta para a corte, caixas e mais caixas dos doces campistas seguiram no trem, e não demorou muito para virar moda entre os palácios do Rio e para dona Júlia ser uma das fornecedoras imperiais.

Durante muitos anos, Campos contou com um número significativo de pequenas fábricas de doce. Segundo Waldir Carvalho, no ano de 1935 a cidade já contava com 6 fábricas de doce entre as 79 fábricas da cidade, além das famosas doceiras campistas. O número não era tão significativo, pois até os anos 90 a produção rural foi totalmente dependente da monocultura canavieira, o que causou o fechamento de algumas fábricas de doce na cidade até os anos 80.

Com o programa frutificar criado no ano 2000 e a ajuda do governo aos agricultores, a fruticultura que esteve adormecida durante todos estes anos em que a cana imperou voltou a acordar, e aos poucos aquele tradicional doce campista que um dia encantou a família imperial está voltando à nossa mesa. Como no texto anterior sobre a cachaça e a economia local, os nossos doces típicos também podem movimentar e mudar o nosso comércio e a cara de nossa cidade, uma das melhores memórias da minha infância em Campos era a do cheiro de Goiabada e de Chuvisco que reinava pelo meu bairro durante certas épocas do ano.

1 COMENTÁRIO

  1. Descobri pelo Almanak Campista que tanto minha bisavó paterna quanto sua sogra, minha trisavó, eram donas de fábricas de goiabada em 1885.
    Feliz por encontrar esse artigo de vocês e mais ainda por saber da riqueza de informações sobre a cidade de Campos que pretendo visitar muito em breve.
    abraço grato

    Katia