Como Campos pode seguir o exemplo de Cleveland?

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Por: Matheus Venancio – Publicitário e autor da Enciclopédia Campista.

Como a cerveja artesanal mudou a cara das pequenas cidades dos Estados Unidos, e como, em Campos, podemos fazer o mesmo com a Cachaça!

Vivo nos Estados Unidos em uma cidade de 385 mil habitantes, no estado de Ohio com uma história muito parecida com a de nossa Campos, que hoje tem 356 mil habitantes.

Cleveland foi uma das maiores cidades dos Estados Unidos no início do século XX. Rica, foi a terra dos famosos “Rockfellers”, assim como Campos que foi a terra dos “barões do açúcar”.

As duas cidades foram terras de índios valentes dizimados pelos Europeus, a cidade de Cleveland como a de Campos é cortada por um rio, que sofreu muito no passado, que de tão poluído chegou a pegar fogo.

Com a grande crise dos anos 70, a cidade perdeu todo o seu poder e passou a ser uma das piores economias do pais, junto com a vizinha Detroit, e assim ficou até o início dos anos de 2010. Cleveland guardou em sua memória o seu passado de glórias e se recriou, e acredito que podemos recriar Campos!

A Cachaça em Campos e a Cerveja em Cleveland

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“Igual admiração me causou ver na Villa de S. Salvador dos Campos, por ser uma das mais opulentas do Brasil” (1834 -Sousa, Antônio Muniz)

Para entender a história da cachaça em Campos e a sua tradição, devemos voltar muitos anos ao passado. O açúcar em Campos foi tão importante que, no ano de 1875, já havia por aqui 245 engenhos de açúcar, com 3.610 fazendeiros estabelecidos na região, e em 1879 já tínhamos a nossa primeira usina de açúcar.

Sobre a criação da cachaça existem várias teorias, mas sabemos que chegou aqui com os Portugueses e que sua primeira destilação foi feita por volta de 1532. Com um número de 3.610 fazendeiros em Campos na segunda metade do século XIX, podemos imaginar a quantidade de alambiques pela nossa cidade. Anteriormente, durante o Brasil colônia, o produto era tão valioso que na Europa era comum trocar escravos por cachaça, e Portugal chegou a aumentar os impostos sobre a cachaça para defender o produto Português contra o produto de sua colônia, marcando o episódio conhecido como Revolta da Cachaça, em 1660.

De Volta ao século XIX e com o surgimento de uma nova elite brasileira, os Barões do Café, e o seu gosto “requintado”, a cachaça perdeu o seu valor de mercado, e passou a ser tida como bebida de pessoas de “classe inferior”.

No decorrer do século XX, intelectuais nacionalistas como Luís da Câmera Cascudo, Gilberto Freire e Mário Souto Maior estudaram a importância cultural, econômica e histórica para o Brasil. Em 1996, Fernando Henrique Cardoso legitima a cachaça como produto tipicamente brasileiro, estabelecendo critérios de fabricação e comercialização e, em 2012, uma lei transformou a cachaça em Patrimônio Histórico Cultural do estado do Rio de Janeiro.

Lendo sobre a cachaça em Campos, cheguei a algumas marcas, incluindo uma que, atualmente, voltou à produção na histórica fazenda da Abadia e foi eleita uma das 10 melhores cachaças do Brasil, e está na lista das mais premiadas do estado. Uma produção campista, feita na antiga fazenda dos Asseca, que passou pelas lutas de Benta e caiu nas mãos do Barão e da Baronesa de Abadia! Ainda sobre esta mesma marca que, no ano de 1920, a Usina Abbadia (anteriormente estabelecida na Fazenda Abbadia) produziu 27.000 sacas de açúcar e 530 pipas de aguardente. Em 2017, outra marca tradicional da cidade conquistou a medalha de Ouro, concorrendo com 92 marcas.

Não muito diferente da cachaça em Campos, a cerveja aqui em Cleveland chegou nas mãos dos imigrantes, uma terra que, devido às suas indústrias,  atraiu pessoas de países como a Polônia, Alemanha e Hungria. As antigas cervejarias foram abertas ainda no século XIX, mas, com a grande crise de anos enfrentada por esta cidade, fecharam as portas e, nos últimos 10 anos, voltaram a abrir.

Algo similar, porém em número muito menor, está acontecendo em Campos, e acredito que devemos apostar neste mercado; além de duas novas marcas de cachaça na nossa cidade, encontrei nos municípios vizinhos tão tradicionais como o nosso: Cachaça Bousquet, de Bom Jesus do Itabapoana; Barra Velha, de Campos dos Goytacazes;  Fazendinha, de Santa Maria Madalena e, em Quissamã, Cachaça do Zeca, Quissacana, Engenho São Miguel, fundado em 1858, que foi um dos Sete Engenhos que fundaram o primeiro engenho central do Brasil, o Engenho Central de Quissamã em 1877. Segundo Felipe Januzzi,do Mapa da Cachaça: “ Quissamã tem uma fórmula vencedora com cana-de-açúcar espalhada por todos os cantos da região, conhecimento e o mais importante: vontade de produzir a melhor cachaça do Brasil”.

Eu acredito que em Campos podemos fazer igual. A cachaça tem se tornado uma ótima opção de negócios nos últimos anos e, atualmente, ela representa 80% do mercado de bebidas alcoólicas do Brasil, o que gerou mais de 600 mil empregos formais e informais, além de ser o terceiro drink destilado mais consumido em todo o mundo.

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Assim como o mercado campista, em Cleveland, também, temos uma joia da arquitetura, uma construção industrial de 1912, que por muitos anos ficou abandonada na área central da cidade.

No ano de 2004, após uma grande movimentação dos moradores da cidade e a criação de uma organização, o bairro passou a ser chamado de “bairro histórico” e a cidade iniciou um processo de restauração do Mercado municipal.

Restaurado, o mercado mudou a cara do bairro, fundado por volta de 1840, assim como o nosso centro. O bairro atualmente é protegido pelos próprios moradores e pela organização, aqui nos EUA não temos lei de proteção ao patrimônio histórico, cada novo comércio aberto no bairro passa por uma votação popular, assim como o projeto de restauração do edifício. A organização que cuida do bairro criou uma identidade para o local incluindo uma bandeira própria, onde cada edifício a exibe com orgulho.

Segundo dados do “food network”, o Mercado de Cleveland, atualmente, tem 100 vendedores, e no ano de 2016 recebeu a visita de cerca de 1 milhão de pessoas. A transformação do bairro foi tamanha, que no último mês o mercado passou a funcionar também ao domingos com Cervejarias, Lojas e Hotéis, assim,  podemos seguir o exemplo com a Cachaça e produtos locais!Com o novo Mercado, aos poucos o bairro foi ganhando uma nova atração turística: As cervejarias artesanais. Pequenas ou grandes estão por todos os lados do bairro. Com as cervejarias, pequenos hotéis para atender aos “turistas cervejeiros” e lojas.

Em 10 anos, Cleveland ganhou mais de 25 cervejarias, sinal de que o negócio vai mundo bem, e o bairro, atualmente, atrai novos moradores, o que antes, com toda a violência, não acontecia.

O orgulho do “Clevelander” pela sua nova Cleveland aumentou tanto, que o produto que mais se vende nas pequenas lojas do bairro são as camisetas com o nome da cidade.

Em Campos, temos a cachaça, os doces, os queijos da roça! Cheguei a encontrar textos antigos de 2015, que em Campos a cachaça aguentaria a agroindústria, o que, na minha opinião, podereia aquecer e movimentar o nosso comércio local.

A ajuda do governo local

Para cada residência histórica restaurada há uma grande redução nos impostos, e para cada nova empresa aberta no bairro e que gera empregos para a população local, o imposto é nulo!

E o rio que pegou fogo?

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De tão poluído e coberto de óleo das fábricas, no dia 22 de junho de 1969, o rio Cuyahoga, que tem o seu nome da tribo dos índios “Mohawks” assim como tivemos os Goytacazes, ambos extintos,  ardeu em chamas, e aquela não havia sido a primeira vez, anteriormente ao ano de 1969, o rio ardeu em chamas em 1868, 1883, 1887, 1912, 1922, 1936, 1941, 1948 e 1952, para você que está lendo isto agora a ideia seria: A vida deste rio acabou!

Da mesma maneira que a população se uniu para salvar o mercado, foi feito para salvar o rio, que no último ano ganhou um fantástico projeto urbanístico com restaurantes, mais cervejarias e uma escola municipal de remo, e a vida? Como a natureza é incrível, voltou ao rio!

Como Campos pode seguir o exemplo de Cleveland?

Você que está lendo esta matéria pode pensar: Ah, mas isto é Estados Unidos! A minha resposta é simples: Campos é uma cidade muito mais rica do que Cleveland, e pode mudar. Nós campistas devemos nos unir, não devemos esperar dos governos uma ação, devemos aprender com as vitórias do passado para construir uma nova Campos, rica novamente no futuro!

Quando criei a Enciclopédia Campista, foi com o desejo de ver uma Campos melhor e de ver os seus filhos orgulhosos de sua terra.

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