Modestino Kanto, o escultor do Monumento ao Expedicionário, na Praça de São Salvador

0
O campista Modestino Kanto, um escultor de talento extraordinário:

Por: Eliz Rosa – colaboradora da Enciclopédia Campista

Às margens do rio Paraíba do Sul nasceu, em 08 de setembro de 1889, aquele que posteriormente se tornaria um escultor de talento extraordinário: Modestino Kanto.

Filho do advogado Dr. José do Canto Coutinho e Rosa Canto, o campista Modestino iniciou os estudos aos 16 anos no Liceu de Artes e ofícios do Rio de Janeiro, mas, logo em seguida, transferiu-se para a Escola Nacional de Belas Artes, (Enba) também localizada no Rio. Lá estudou escultura tendo como professor Rodolfo Bernardelli (escultor e professor mexicano naturalizado brasileiro).

Modestino Kanto (1912) Acervo/ Biblioteca Nacional
Modestino Kanto (1912) Acervo/ Biblioteca Nacional

Neta explica sobrenome

Estabeleci contato com sua neta, Analice Kanto, filha de Modestino Kanto Filho (in memorian), que gentilmente contribuiu com a pesquisa buscando, junto à sua mãe Annita Schendel Kanto, informações sobre seu avô. Ela explica que o sobrenome da família era “Canto” com letra “C”, conforme é possível observar pelos nomes dos pais dele, mas seu avô resolveu mudar para “Kanto” com letra “K”, por ser mais artístico, criando assim um sobrenome “novo”.

Também no Carnaval

Em 1913 participou como decorador no Carnaval carioca, atuando como escultor e cenógrafo do Clube Carnavalesco “Tenentes do Diabo”. Durante anos, o Clube Tenentes foi uma das principais estrelas do desfile das grandes sociedades carnavalescas tradicionais da cidade do Rio.

Outro fato interessante, narrado por Analice, diz respeito à atuação de Modestino Kanto e outros artistas no Carnaval. Ela comenta que “os artistas tinham uma vida muito difícil e, por isso, aproveitavam o carnaval para trabalhar, fazendo esculturas”. Assim, em sua leitura, “parece que não era tanto o gosto pelo carnaval o principal motivo dessa atuação, mas sim a necessidade financeira que fazia com que os escultores trabalhassem nessa época do ano”.

Belas Artes

De 1912 a 1956, o artista iniciou sua participação nas edições da Exposição Geral de Belas Artes do Rio, posteriormente renomeada como Salão Nacional de Belas Artes.

Na 25ª “Exposição Geral de Belas Artes”, o talentoso escultor foi contemplado com o prêmio de viagem (bolsa de estudos) à França, com a escultura em gesso “On ne passe pas”, feita em homenagem à resistência francesa aos exércitos alemães na I Guerra Mundial.

Mestres famosos

Residindo em Paris entre os anos 1918 e 1921, estudou com Paul Landowsky, que posteriormente ficaria conhecido como o criador da estátua do Cristo Redentor, instalada no morro do Corcovado, Rio de Janeiro.

De volta ao Brasil, o exímio escultor trabalhou com Correia Lima (arquiteto, urbanista, paisagista e designer) na decoração do Palácio Tiradentes, hoje sede da Câmara dos Deputados, no Rio de Janeiro, executando as estátuas de Dom Pedro I e do Marechal Deodoro da Fonseca. Além disso, entre os anos 1922 e 1926, trabalhou com Hildegardo Leão Veloso e Armando Magalhães Correa na criação de dois grandes conjuntos escultóricos executados em concreto, instalados na fachada do Palácio.

Monumento colossal a Deodoro

Entre 1934 e 1937, auxiliado pelo seu aluno Honório Peçanha, erigiu outro monumento a Deodoro que foi instalado na Praça Paris, também no Rio de Janeiro. Para ilustrar a grandiosidade dessa obra, que possui 23 m de altura e pesa 850 toneladas, Braga e Seffrin (2016) afirmam que dentro da cabeça do cavalo “cabe perfeitamente um homem em pé”. Ressaltam que o Marechal Ilha estava decidido a mandar fundir a estátua na Europa, mas Modestino Kanto o teria persuadido a deixá-lo executar o trabalho mediante apresentação das cartas de recomendação que recebera dos escultores Leão Veloso e Cozzo, durante sua estadia em solo europeu.

“Monumento ao Expedicionário”

estatua-soldado (1)-xxx

No dia 14 de abril de 1947 o seu trabalho “Monumento ao Expedicionário” foi inaugurado na Praça São Salvador, em Campos dos Goytacazes.

Trajetória

Seus trabalhos integram os acervos do Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro (Fruta da Terra, 1929) e também possui trabalhos expostos no Museu Mariano Procópio, em Juiz de Fora, entre outras instituições.

Modestino Kanto casou-se com Judith Medeiros e dessa união nasceram três filhos: Modestino Kanto Filho (31.10.1919), Rubens Kanto (06.01.1926) e Dithelmo Kanto (23.04.1927).

Além de escultor, o artista exerceu por longos anos a carreira de professor no Rio de Janeiro, ministrando aulas de modelagem na Escola Profissional Visconde de Cairu e no Liceu de Artes e Ofícios, função que exerceu até o seu falecimento em 22 de outubro de 1967.

Em 2010 integrou a Exposição Coletiva – “Coleção de Escultura: da República à Contemporaneidade”, Caixa Cultural, São Paulo, SP, 2010.

Outros prêmios:

– Menção honrosa de segundo grau (1914)

– Menção de primeiro grau (1915)

– Grande medalha de prata (1917)

– Medalha de ouro (1928)

– Prêmio de viagem ao país (1955)

Assim como a escultura estende suas formas através do espaço, recordar a trajetória desse talentoso artista é mais que reconhecer o seu legado. É uma forma de fazê-lo transcender as linhas tênues de delimitação do tempo e situá-lo nos corações e nas mentes de seus conterrâneos.

NENHUM COMENTÁRIO