“Wladimir Garotinho pretende dar a sua contribuição para a descaracterização da Campos”

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Aristides Soffiati

Aristides Soffiati

O prédio do Mercado Municipal de Campos é um dos mais belos da cidade. Ele foi construído na margem esquerda da lagoa do Osório e do canal Campos-Macaé. Daí os frequentes alagamentos que atingem a área quando chove. Trata-se de um prédio sóbrio com 101 anos de idade. Garotinho teve a infeliz ideia de reunir todos os camelôs de Campos no lado prédio voltado para a Rua Barão de Amazonas. De forma autoritária, ele tomou essa decisão e construiu um prédio que adulterou a integridade do Mercado.

Tem sido esse o destino dos prédios que marcam a história da cidade e que apresentam linhas arquitetônicas características de uma época, além de comporem a unidade urbanística. O naturalista alemão Maximiliano de Wied-Neuwied, quando concluiu sua excursão científica entre o Rio de Janeiro e Salvador, escreveu que Campos era a mais bela e mais próspera depois das duas. Desde então, ela vem sendo adulterada para atender a cobiça da especulação imobiliária e da construção civil. E os prefeitos e vereadores costumam contribuir para a descaracterização da cidade. A situação dela piorou com o desejo de proprietários de ganhar dinheiro com prédios antigos, mesmo tombados pela União, pelo Estado e pelo Município. Eles começam na alçada do patrimônio e acabam aos cuidados da Defesa Civil. Basta ver o Solar dos Airizes e do Asilo do Carmo. Basta ver a situação do prédio da Lira de Apolo e do Hotel Amazonas. Campos está se transformando numa cidade-garagem.

Agora, o prefeito Wladimir Garotinho pretende dar a sua contribuição para a descaracterização da Campos com a retomada das obras do Camelódromo. Essas obras ficaram paralisadas por vários anos. O Camelódromo passou a funcionar no Parque Alberto Sampaio, na parte em que o Canal Campos – Macaé foi coberto indevidamente por outro prefeito. Seria melhor aproveitar essa oportunidade para demolir as obras do Camelódromo, restaurar o prédio do Mercado e escolher uma outra área para o Shopping Popular. Essa área deveria ser escolhida por consulta popular. Até a fixação dele sobre o canal poderia ser consolidada, desde que um sistema de drenagem do local fosse construído. Rosinha Garotinho fez tal obra, mas, de modo totalmente errado. Enfim, a família Garotinho vai deixar uma forte marca de desrespeito ao patrimônio edificado.

De nada valem os Planos Diretor e de governo do prefeito, além da existência do COPPAN. Eles existem para simular uma falsa preocupação com o patrimônio cultural.

(Aristides Soffiati é mestre e doutor em história ambiental pela UFRJ e um dos mais respeitados ecologistas brasileiros)

Recomendação do editor: Assista ao vídeo abaixo

Documentário de 2020, com entrevistas e imagens que mostram a projeção do novo “Camelódromo”. E uma reforma do Mercado Municipal, atualmente descartada pelo município. Vale a pena assistir.

Mercado Municipal de Campos dos Goytacazes – um patrimônio em disputa (documentário) (18 de mar. de 2020)

 

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