“Telhado de Barro”: Rosinha, Garotinho, a Odebrecht e as “Casinhas”. A construção de uma cumplicidade

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Rosinha, Gartotinho e delatores da Odebrecht. Um jogo de cartas marcadas

Somos Online em 12 de abril de 2017:

“Segundo as delações premiadas dos ex-executivos da Odebrecht Benedicto Barbosa da Silva Júnior e Leandro de Andrade Azevedo, Garotinho recebeu dinheiro de caixa dois da empresa para a sua campanha de governador em 2014.

Leandro Azevedo ainda afirma que Garotinho e Rosinha receberam R$ 9,5 milhões em três eleições e que cultivava uma relação bem próxima a Garotinho que, assim, negociava sem burocracia: “Presenciei, algumas vezes, Garotinho telefonando para os secretários da Fazenda do Município durante a gestão de Rosinha em Campos (…) e pedindo que tivéssemos preferência na regularização dos pagamentos em atraso”.

“Os delatores ainda disseram que Rosinha recebeu recursos de caixa dois para as campanhas à Prefeitura de Campos dos Goytacazes (RJ) em 2008 e 2012.”

Revista Somos Assim em 21 de fevereiro de 2010:

O Show dos Milhões em obra discutível, insegura e muito cara
O Show dos Milhões em obra discutível, insegura e muito cara coma  Odebrecht que agora delatou Rosinha e Garotinho
Rosinha aterrou uma lagoa em área de proteção para facilitar seu contrato com a Odebrecht
Rosinha aterrou uma lagoa em área de proteção para facilitar seu contrato com a Odebrecht

Nessa data a revista denunciava que a prefeitura estava aterrando a área de proteção ambiental da Lagoa Maria do Pilar (nos fundo do HGG) para construção de casas populares. Mas todas as denúncias foram em vão.

Veja a retrospectiva do maior contrato da história da Prefeitura de Campos, 1.2 bilhão de reais, e entenda as estranhas relações de Rosinha e Garotinho com a Odebrecht que resultaram nas denúncias nas delações premiadas dos seus executivos, agora sob investigação do Tribunal Regional Federal RJ.

Telhado de Barro, quem saiu ganhando e quem saiu perdendo nessa história imoral

Mesmo com o ambientalista e doutor em História Ambiental, Aristides Soffiati, tendo entrado com uma representação nas 1ª e 2ª Promotorias de Justiça e Tutela Coletiva pedindo ao Ministério Público, “em caráter urgente, valendo-se dos meios apropriados, o embargo liminar e cautelar da obra para discutir a questão sem açodamento.”. A ex-prefeita Rosinha continuou e acelerou o aterro da área de lagoa que ela mesma havia demarcado no Plano Diretor do Município, aparentemente para cumprir uma promessa populista utilizada em sua campanha eleitoral.

Relatório do GAPE condenou a construção das "Casinhas" e apontou defeitos
Relatório do GAPE condenou a construção das “Casinhas” e apontou defeitos

As fotos aéreas, obtidas com exclusividade pela equipe da Somos e levadas ao Ministério Público, demonstraram claramente que o aterro para as casas estava sendo construído dentro da faixa marginal de proteção da Lagoa Maria do Pilar. Mas nenhuma medida foi tomada pelas autoridades para impedir o crime ambiental.

Estranho Inea

Ao ser procurado pela equipe da Somos Assim, Renée Justen, na época Superintendente do Inea, afirmou: “A gente vai ter que sentar, reunir, avaliar e paralisar a obra nesse trecho.”

Renée Justen, na época Superintendente do Inea
Renée Justen, na época Superintendente do Inea

Cerca de trinta minutos após a sua entrevista, ele, estranhamente, mudou de opinião, desdizendo o que havia acabado de dizer em entrevista gravada (devidamente guardada em nossos arquivos).

O Show dos Milhões

Em 28 de fevereiro de 2010, a Revista Somos Assim denunciava as estranhas licitações de Rosinha com fortes indícios de um jogo de cartas marcadas.

A Folha da Manhã havia antecipado a empresa vencedora quatro meses antes.

Excesso de bondade

Conforme informou o blog de Cristiano Abreu Barbosa (Folha da Manhã) em 22/02/2010, a Odebrecht, grande vencedora da licitação de R$ 357 milhões (cujo resultado havia sido antecipado meses antes pela Folha da Manhã) cedeu, sem nenhum ônus, os direitos sobre 20% da licitação vencida por ela para a Construsan, de Zezé e Thiago

Gomes. A cessão foi classificada por blogs como um “mimo fabuloso” ou “a abertura do baú de bondades” que pode, na verdade, ser “parte de um vasto jogo de interesses políticos que provoca toda essa generosidade milionária”.

Crime ambiental

O agravante da história é que as casas populares, cuja construção foi parcialmente cedida à Construsan, foram construídas em áreas de

preservação ambiental, sem nenhuma interferência do poder público. Na época a Somos questionou o porquê da inércia dos órgãos fiscalizadores da Prefeitura, e do próprio Inea, diante de um crime ambiental de tamanha gravidade e notoriedade. Agora parece que a resposta foi dada. Veja o que foi dito na Somos em 2010:

Em 2010 a Somos Assim avisou sobre os financiamentos de campanhas eleitorais

“A construção das casas populares foi uma das promessas de campanha de Rosinha Garotinho que, certamente, contribuiu para elegê-la prefeita de Campos. Prometendo 5,1 mil casas populares à população da periferia, Rosinha Garotinho conseguiu o voto do povo. Com a perspectiva de futuras licitações milionárias a grandes construtoras responsáveis pelo financiamento de sua campanha, ela ganhou o voto e o dinheiro de parte da classe alta. Mas a articulação das licitações entre empresas vai muito além da campanha de Rosinha para a Prefeitura Municipal. São as construtoras responsáveis, também, pelo financiamento das candidaturas de Garotinho e, como estamos em ano eleitoral, pode estar aí outra explicação para os estranhos acontecimentos em Campos.”

“Rosinha cumpre promessa:

357 milhões de reais, 5.100 casas populares, nenhuma coluna de concreto. Somente tijolo, uma camada de cimento no chão, uma fina laje e um telhado.”

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(Somos Assim em 25/02/2010)

Em 25/02/2010 a Revista Somos Assim avisava que a construção das 5,1 mil casas prometidas em campanha por Rosinha Garotinho sempre esteve envolta em uma nuvem de problemas e graves questionamentos. E relembrava: “Em agosto de 2009 a Somos, baseada em um estudo realizado por mestrando da Uenf, já alertava sobre os problemas ambientais e sócio-econômicos que as construções trariam. Seguiu-se a isso uma pouco recomendada licitação no estrondoso valor de R$ 357,9 milhões (sem falar no tradicional adicional de 25%). Mas, antes mesmo da abertura dos envelopes, a coluna Ponto Final, da Folha da Manhã, alertou, no dia 29 de maio, que a grande vencedora seria a Odebrecht”.

Apesar do escândalo que a antecipação e o acerto do resultado geraram, a licitação não foi impugnada. Ao contrário, rapidamente as casas começaram a ser construídas.

A divulgação desses fatos pela Somos fez muita gente ficar indignada com a grande preocupação do Governo Rosinha Garotinho com o marketing de oferecer 5.100 casas populares, mas sem nenhum critério de construção segura.

Perigosa economia

Ainda na Somos Assim de 25/02/2010:

Sem as colunas de concreto a construção ficou muito mais barata
Sem as colunas de concreto a construção ficou muito mais barata

“Apesar de toda a polêmica que a construção das casas populares já gerou, um grande risco que pode colocar em risco a vida dos futuros moradores que irão habitar essas casas ainda estava para ser revelado. As casas estão sendo erguidas sem nenhuma coluna de concreto. Ou seja, tão somente tijolo, uma camada de cimento no chão, uma fina laje e um telhado, sem nenhuma coluna de concreto para dar sustentação e segurança à construção. Considerando que estas casas estão sendo feitas em áreas ambientalmente sensíveis e inundáveis, a vida de todos os futuros habitantes poderá correr forte risco”. “Por mais explicações que a prefeitura e a construtora possam dar para justificar a construção de casas sem a segurança básica de colunas de concreto, fica difícil explicar como podem ser gastos incríveis 357 milhões de reais nesse tipo de obra, onde se economiza com itens que, qualquer simples pedreiro sabe, protegeriam a vida de milhares de campistas dentro dos seus futuros lares”.

Telhado de Barro 2

absurdos como esse da foto na Telhado de Barro 2
absurdos como esse da foto na Telhado de Barro 2

Na segunda parte da série “Telhado de Barro”, mostraremos os laudos periciais, os erros de construção, a utilização de materiais inadequados mais baratos, e constatação pericial em relatório da Prefeitura da ausência de pilares de concreto, e como nada impediu o prosseguimento da obra.