A moda dos últimos 118 anos dos vestidos de casamento em Campos

0

Estamos em maio e lá vem a noiva!

Por Matheus Venancio – Publicitário e autor de “A Enciclopédia Campista”

Há muito tempo tenho vontade de escrever sobre as noivas campistas e sua história através do século XX. Organizando a árvore genealógica da minha família materna obtive muitas fotografias de casamentos, cada qual marcando o estilo de sua época, hoje apresento aos amigos da Enciclopédia Campista a história dos últimos 118 anos dos casamentos em Campos.

O traje, tanto masculino, quanto o feminino, é parte fundamental para este grande evento. Até a primeira metade do século passado o enlace matrimonial significava algo muito maior do que formar uma família ou qualquer idéia romântica. A união entre duas famílias, de qualquer classe social, representava a ideia de “somar”.

Se para os abastados a soma patrimonial, para os menos favorecidos a idéia de “uma vida melhor”. E nada mais representativo para dar boas vindas a uma nova vida conjugal do que ir vestido de gala.

Os valores do sagrado e da união entre os adultos, e a obediência feminina, eram temas de educação infantil para as meninas. A mulher era considerada inferior ao homem: primeiro ao pai, depois aos irmãos e, logo, ao marido, a sua moral devia ser imaculada, entregando-se apenas ao seu marido no ato nupcial.

Até a primeira metade do século passado o sexo era feito com vestimentas, e apenas para “procriar”. A mulher não poderia demonstrar dor ou prazer. E não pense que havia beijo. O ato de beijar apenas tornou-se popular depois da primeira guerra mundial, quando uma invenção do dentista norte americano Washington Sheffield, de 1850, foi modificada pela Colgate & Company, em 1892, e tornou popular no mundo a pasta dental, e aqui no Brasil lá pelos anos 20 nas casas mais favorecidas.

Em 1901, o filho da rainha Vitória do reino Unido torna-se rei. A França vivia a sua belle époque, o Rio de Janeiro queria ser Paris, e Campos queria ser a “Capital do Estado do Rio”. Podemos observar toda a influência, tanto da belle époque, quanto da era Eduardina, em Campos, através das novas construções da antiga rua direita (atual Rua 13 de Maio), dos seus cafés, do Cine Theatro Trianon, das belas “boutiques”, e de sua arquitetura afrancesada.

É neste contexto que apresentaremos o casamento campista da primeira década.

Na França a moda foi marcada por muito luxo, cinturas finas, ancas marcadas, quadris volumosos, e forte tendência Greco-Romana, com florais, rendas, tecidos leves, e muitas fitas. Já a moda inglesa, era marcada por bustos largos, sem estampas e saias em formato de “sino”. Esta preferência britânica partia do gosto masculino, os homens do Reino Unido gostavam de mulheres “cheias”.

Observando fotografias brasileiras, podemos concluir que as senhoras preferiam mais o estilo Inglês e as senhoritas o moderno estilo Francês.

Para os homens mais elegantes, terno e cartola, a cartola apenas para eventos, e também a nova moda da bainha virada.

Podemos observar nestas duas fotografias, a primeira dos meus bisavós, Manuel Ribeiro Venancio com a senhorita Noêmia Cordeiro Venancio, em uma fotografia oficial do dia do enlace matrimonial na primeira década do século XX. Observa-se a esposa ao fundo, cabelos presos, bordados e flores. Na segunda fotografia, já sete anos após, em 1917, o enlace matrimonial do irmão mais velho de Finazinha Queirós, Abelardo Queiróz, com a senhorita Leny Moura, onde podemos observar as mulheres com vestidos mais curtos ainda com muitos bordados e flores, e os senhores de ternos negros.

A revolução da moda – os anos 20

Com o final da primeira Guerra Mundial, o chamado “mundo moderno” vivenciou uma grande revolução da moda. Durante a primeira guerra mundial o vestido subiu pela falta de tecidos. Gabrielle Chanel aboliu os vestidos armados em favor do prático e confortável. Não cabia durante anos de guerra e, muito menos, depois da guerra, os longos vestidos. Os empregados foram liberados para lutar na guerra, as mulheres passaram a trabalhar como enfermeiras e o “prático” acabou virando o “atual”, e não tardou em chegar por aqui.

A mentalidade campista na época sofria transformações. Campos já contava com escolas femininas, como o curso Normal do Liceu de Humanidades, o recém criado Colégio Auxiliadora em 1926, e uma Escola Profissional Feminina em 1924. As senhoritas já estavam sendo criadas para trabalhar. No entanto, podemos imaginar que esta mudança em tal sociedade patriarcal e rural tardou muito a chegar.

Os anos da revolução foram marcados em Campos pelo grande cinema mudo e as atrizes de Hollywood com seus vestidos curtos, roupas masculinas, cigarros e toda a liberdade do primeiro mundo.

Não podemos nos equivocar pensando que a “masculinidade” feminina representaria mulheres masculinas, muito pelo contrário, representou a famosa “Melindrosa”, uma mulher alegre, divertida que saía com as amigas para o cinema, com muita pintura no rosto, porém, ainda inocente.

Esta transformação também pode ser notada entre os homens campistas, que passaram a se dedicar aos esportes como o remo e football, e a se vestir com trajes mais claros fato que, inclusive, podemos observar entre os “coronéis” campistas.

Nesta fotografia abaixo podemos observar a influência britânica na moda campista nos anos 20.

Anos 30: A Era do Beijo

Com os anos 30 veio a famosa era do beijo, do romance, e das grandes atrizes de Hollywood.

A chegada do cinema falado com o seu inglês perfeito, e aqui com o seu português perfeito. As mocinhas, os galanteadores, tudo aquilo novamente marcou e modificou a moda dos casamentos. Se pararmos para observar o pulo que a moda deu dos anos 20 aos anos 30, e como a moda sofreu um grande “retrô” durante os anos 40, é quase impossível de acreditar.

E, por sorte, hoje contamos com as fotografias para comparar. Abaixo está, em minha opinião, uma das maiores atrizes de Hollywood e embaixadora da moda dos anos 30 para o mundo, Joan Crawford em seu ultra moderno vestido para o filme “I Live my life” de 1935, e, ao lado a campista Florinda Monteiro Venancio, que em minha opinião usou um dos vestidos mais bonitos da década de 30 em Campos.

Os Anos 40: O feminino Romântico

O mundo novamente sofria uma grande transformação. Nas rádios campistas as meninas escutavam musicas francesas, italianas e americanas, influenciadas pelos filmes, e aqui ainda chegavam as notícias sobre o casamento da então “Princesa Elisabeth”, atual Rainha Elisabeth, do Reino Unido, e a era Hitler, que acabaria em 1945.

A guerra causou uma grande onda conservadora no mundo, chegando aos vestidos de noiva que brutalmente voltaram à antiga moda da belle é poque, e o vestido da princesa, desenhado por Norman Hartnell, influenciou as noivas do mundo inteiro.

Os trajes masculinos também passaram por tal transformação. Se durante os anos 30 as campistas representavam o “moderno” com  seus vestidos, nos anos 40 a linha tradicional voltou, como podemos observar nas fotografias abaixo:

Nos 50: A Era do Rock

Com o final da década de 40 e a chegada dos anos 50, veio a famosa era do Rock, escutei muito os meus avós comentarem sobre as festas de “rock” que aconteceram na casa dos meus bisavós na rua Gil de Góes.

Mais uma vez influenciadas pela moda norte americana, as meninas campistas mudaram a moda e, claramente, podemos observar nos vestidos abaixo as saias mais rodadas, os cortes de cabelo curtos, e as mangas e as golas bem no estilo Rock. Praticamente as meninas saíam da igreja pensando na hora de dançar nas grandes festas nos salões do Saldanha da Gama ou do Automóvel Clube. E olha que as meninas campistas estavam bem modernas junto a grande influencia americana que batia as portas do Brasil.

(Neuza Venancio e Carlos Mignot)

Anos 60: A Era Espacial

Em setembro de 1956 os Estados Unidos lançaram o seu primeiro veículo espacial para Júpiter. No ano seguinte, no dia 4 de outubro de 1957, o mundo acordou com a notícia de que os russos havima colocado um satélite no espaço. O Sputnik foi o primeiro de muitos, mas a exploração espacial e o mundo nunca mais seriam os mesmos.

Tudo mudou, este lançamento foi visto como uma pesada derrota pelos Estados Unidos e obrigou o país a entrar também na corrida espacial. Tudo representava a modernidade. Durante os anos 60 Campos passou a perder grande parte de seu patrimônio arquitetônico em nome do “Moderno”, e foi como um jogo de palitos que passou sem pena derrubando a antiga Santa Casa de Misericórdia, o antigo Ninho das Águias e o Palacete Vicente Nogueira, chegando até ao grandioso Cine Theatro Trianon.

Campos foi invadida por casas de arquitetura moderna, pelos traços do arquiteto Jofre, pelos carros rabos de peixe, mulheres com os seus cabelos “Juba de leoa”, e rapazes com as suas lambretas, camisas e calças justas, no maior estilo “bad boy”.

Entre os casamentos, publico esta fotografia do casamento de Maria Amélia Boynard no maior estilo “Era espacial”.

Maria Amélia Pinto Boynard.

Anos 70: O Tropicalismo e o casamento que parou a cidade

Durante os anos 70 podemos ver de tudo nos casamentos campistas, das princesas aos hippies. As mocinhas de família mais “tropicalistas” se casavam “moderninhas”, porém em festas fechadas para convidados nos clubes, como foi o caso dos meus pais. Minha mãe casou com um vestido “hippie chique”, com uma guirlanda florida, em uma festa tradicional do Automóvel Clube Fluminense.

Não podemos falar de casamentos da era do tropicalismo sem comentar sobre o casamento do artista campista Ivald Granato: um casamento ao ar livre na pracinha do Liceu. Os noivos chegaram para o casamento em uma charrete florida. Foi um daqueles eventos únicos, com praticamente toda a cidade ao redor assistindo a cerimônia.

O Casamento no Jardim de Liceu – Arquivo Vânia Coelho

A era das filhas e netas das princesas

Se durante os anos 40 veio o romance e a grande era do beijo para as campistas, a partir dos anos 80, o casamento de sonhos da princesa Diana do Reino Unido causou um grande alvoroço no mundo da moda, incluindo as campistas. O que foi visto pelas igrejas de nossa cidade do famoso “vestido Bolo de Noiva” não está no gibi, o mais curioso é que muitas das noivas atualmente morrem de vergonha das fotografias de seus casamentos.

Com a entrada dos anos 90 e a chegada dos anos 2000 a coisa mudou. A mulher atual trabalha, batalha, e é super independente. Mas aquele sonho de princesa lá do passado, das suas avós, continua mais vivo do que nunca, e com o mundo bem diferente fica a dúvida se podemos optar entre comprar, mandar fazer, ou usar vestidos antigos.

Lendo uma matéria escrita por Naiara Andrade para o Jornal Extra, sobre vestidos e casamentos, encontrei a história da campista Nábia Assed, que tem entre os seus tesouros uma joia usada pela sua avó paterna na Catedral de Campos há mais de 65 anos. Aquele vestido de princesa é passado entre as noivas da família Assed como um tesouro guardado a sete chaves.

(O vestido da família Assed na primeira fotografia a avó e na segunda a neta)

Em poucas semanas haverá o tão esperado casamento real na Inglaterra, e já podemos nos preparar para as tendências que por aqui chegarão, e assim, como lá no passado um casamento real marcou a moda das já bisavós, o próximo marcará o mundo da moda das bisnetas.

Matheus Venancio / Marketing Manager

NENHUM COMENTÁRIO