Campos, terra de lutadoras!

0

Por: Matheus Venancio – Publicitário e autor de A Enciclopédia Campista.

Aqui até mesmo as mulheres lutam pelo direito

Brasão_de_Campos_dos_GoytacazesA frase acima está estampada na bandeira do município de Campos por indicação do Dr. Pereira Nunes em 1911, uma frase para representar uma cidade de mulheres fortes, como Benta Pereira e sua filha Mariana Barreto, ou a eterna Isaura, protagonista do escritor Bernardo Guimarães “Não, por certo, meu senhor; o coração é livre; ninguém pode escravizá-lo, nem o próprio dono.” (Isaura em A Escrava Isaura)

 

Eufrásia

Eufrásia Teixeira de Leite, a "Dama dos Diamantes Negros" no mundo dos negócios internacionais
Eufrásia Teixeira de Leite, a “Dama dos Diamantes Negros” no mundo dos negócios internacionais

Lendo a história de dona Eufrásia Teixeira de Leite, uma mulher que nasceu em berço de ouro na cidade de Vassouras, no ano de 1850, e viveu uma paixão com Joaquin Nabuco que rendeu um noivado de 14 anos, e logo virou a “Sinhazinha Emancipada” após a morte de seus pais, resolvi buscar  algumas das muitas “Eufrásias” campistas.

 

Quase brancas

ISAURA-CAPA-LIVRO-1Isaura, uma lenda ou realidade? A campista que lutou contra tudo e contra todos, mesmo que no imaginário de muitos.

Se Isaura existiu e se realmente era chamada de Isaura, não sabemos, o que sabemos é que a história se passa na fazenda dos Airizes, no início do século XIX.

Isaura, uma linda escrava, branca e bem educada que era assediada pelo seu senhor, Leôncio. Voltando aos livros sobre o passado de Campos, podemos observar que era muito comum as escravas “quase brancas”, como chegou a relatar Feydit em um relato sobre o “Harem” de São Bento, onde as escravas quase brancas eram as filhas dos monges com as escravas da fazenda.

No ano em que o livro “A escrava Isaura” foi lançado, 1875, o país vivia uma febre de idéias liberais e modernas para o século XIX, Isaura representou a mulher campista, a heroína brasileira e até mesmo mundial na década de 80 do século XX. Uma escrava que lutou com todas as forças pela sua liberdade.

Anos antes de Isaura

Alberto Lamego, ao citar as campistas da época de Benta Pereira, escreve: “A mulher é livre. Tão livre, que os motins em praça pública são por elas encabeçados.”

“Senhoras de Engenho”

Benta Pereira
Benta Pereira

Na época de Benta Pereira, havia um número expressivo de fazendeiras e senhoras de engenho em Campos, a maioria delas ocupava esta posição pelo fato de serem viúvas. Segundo a historiadora Márcia Pinna, no final do século XVIII, um censo revelou que havia mais mulheres do que homens no estado do Rio de Janeiro; na cidade do Rio, havia um predomínio feminino livre, 52.6% eram mulheres. Em Campos, segundo relatou Couto Reis, de 124 engenhos de açúcar, 10 eram administrados por “Senhoras de Engenho”.

Segundo o Almanak da cidade do ano de 1881 e 1882, em Campos havia 89.120 mil habitantes, 57 mil livres e 32.120 escravos, separados entre as “freguezias” de Bom Jesus, S Benedito, Morro do Coco, S. Salvador, Dores, Natividade, Santa Rita, São Gonçalo, Guarulhos e São Sebastião. O número de mulheres livres era o de 28.153. Além das mulheres viúvas ou solteiras, devemos destacar o papel da “Sinhá”, que nada tinha de submissa ao seu marido.

Era a senhora casada a responsável pela proteção das demais escravas da fazenda, pela alimentação, pelas vestimentas, além de uma grande corrente entre as outras senhoras. As sinhás tinham, nas fazendas, um grande poder sobre a vida e a morte dos escravos, mas, no caso das sinhás, nem todas chegaram a ser Eufrazias. Em Campos, podemos destacar uma, a sinhá Anita ou dona Anita Peçanha.

Anita Peçanha e a transição do século XIX para o XX

Para falar de Anita, antes devemos voltar a sua tia avó, a famosa senhora do Solar da Baronesa, que além de Baronesa era Viscondessa de Muriaé, dona Raquel Francisca Ribeiro de Castro.

Baronesa e Viscondessa de Muriaé, dona Raquel Francisca Ribeiro de Castro
Baronesa e Viscondessa de Muriaé, dona Raquel Francisca Ribeiro de Castro

Raquel tornou-se baronesa ao ser concedido o título ao seu marido, Manuel Pinto Netto da Cruz, e a senhora “Baronesa”, como era conhecida em Campos, era uma espécie de “Rainha Victória” campista, filha do primeiro Barão de Santa Rita, irmã do segundo Barão de Santa Rita e do primeiro Visconde de Santa Rita, mãe da Condessa de Araruama. A Senhora “Baronesa” fundou a maior hierarquia rural do norte fluminense, junto com os seus irmãos, através dos casamentos consanguíneos. Comandou a família até o último dia de sua vida, e já viúva, recebeu o título de Viscondessa de Muriaé, do Imperador D.Pedro II.

Anita era sobrinha neta de dona Rachel, filha de um famoso advogado e administrador do engenho da Sapucáia, e de Ana Raquel Ribeiro de Castro. Com este histórico e tanto “pedigree” de Anita, como poderia assumir uma paixão, ainda no século XIX, por um mulato, filho de um padeiro do Morro do Coco?

Anita Peçanha era sobrinha neta de dona Rachel
Anita Peçanha era sobrinha neta de dona Rachel

Logo Anita, uma “sinhá” educada por tutores europeus enviados a Campos especialmente para a sua educação, nascida no palacete dos Santa Rita, na rua 7 de setembro (já demolido), a sociedade campista comentava espantada! Mas o romance entre Anita e Nilo foi um “Coup de Foudre”! Como se dizia naqueles tempos, “amor à primeira vista”.

Anita foi uma “sinhazinha” que lutou pela sua liberdade. Seu pai, o doutor João, até tinha simpatia por Nilo, e ainda declarava-se seu eleitor, mas a mãe de Anita, dona Ana Raquel, e toda a família Ribeiro de Castro eram contra o romance de Anita com o filho do “Sebastião da Padaria”. Com o falecimento de seu pai, o único apoiador do romance, Anita resolveu partir para o Rio de Janeiro e, no ano de 1895, às escondidas, casa-se com Nilo Peçanha.

A grande lei do “Colhemos o que plantamos” foi favorável a este grande amor. Anita mais tarde virou a primeira grande dama do Brasil, ao lado de Nilo. Segundo o Jornal A tribuna de Petrópolis, a república do Brasil nunca havia visto antes uma primeira dama tão elegante. Entre as senhoras dos tempos imperiais, Anita ficou conhecida como “A Grande dama do Rio Negro”.

O Século XX – Mulheres na luta!

Vou iniciar esta parte com dois trechos retirados do livro Campos Depois do Centenário, do grande Waldir Pinto de Carvalho:

mulheres-guerra

“Lília Pereira da Silva, Segunda Tenente Lília Pereira da Silva. Filha de Paulino Pereira da Silva e Aidée Guimarães. Portadora do diploma de enfermeira, incorporou as Forças Expedicionárias, marcando a presença da mulher campista na guerra que abalou o mundo de 1939 a 1945. Lília prestou o melhor dos seus serviços e, mesmo tendo sido acidentada, voltou ao nosso país, vitoriosa, em 27 de dezembro de 1944.”

“Maria José Vassimon de Freitas, que nascida na terra de Benta Pereira, esteve servindo às Forças Expedicionárias durante o conflito. Filha de Joviniano Freitas e Maria Vassimon Freitas, Maria José, na condição de Enfermeira Socorrista, deu a melhor de sua contribuição, atendendo os feridos que puderam ser retirados dos campos de batalha.”

O século XX foi marcado por guerras, revoluções, mudanças na moda e na sociedade; e mais direitos para as mulheres

Como Anita, no início do século XX, em Campos, tivemos uma outra guerreira bem antes das citadas acima, uma das minhas favoritas, Maria da Conceição Rocha e Silva.

Maria nasceu em Campos no ano de 1916, e foi batizada como Maria da Conceição Rocha e Silva, mas logo ganhou o apelido de Nina, que vinha de “pequenina”, e juntou o Arueira, sobrenome de seu pai, sendo conhecida como “Nina Arueira”.

Nina Arureira
Nina Arureira

Liceísta, poetisa, moderna, Nina foi acusada muitas vezes de comunista por defender o feminismo e idéias modernas para a sua época. Nas suas saídas do Liceu, sempre pegava o bonde voltando para casa e era comum ninguém sentar ao seu lado.

Do Liceu de Humanidades de Campos, foi convidada a se retirar por manifestar suas opiniões contrárias às ordens vigentes, não podendo, assim, completar o seu curso Normal. Logo depois chegou a trabalhar no Monitor Campista, publicando seus poemas.

Faleceu aos 19 anos de idade no ano de 1935, estava noiva, e foi sepultada com o seu vestido de casamento.

Bailarina negra

Mercedes Baptista
Mercedes Baptista

Poucos anos depois do nascimento de Maria, no ano de 1921, nasceu outra grande campista, Mercedes Ignácia da Silva Krieger, Filha de João Baptista Ribeiro e de Maria Ignácia da Silva, uma costureira campista. Mercedes não teve uma vida fácil, muito menos em sua vida como bailarina clássica, o motivo: negra e pobre nos anos 40.

Mercedes venceu a luta e em 1948 tornou-se a primeira bailarina negra a fazer parte do corpo de baile do Municipal do Rio de Janeiro. Poucos anos mais tarde, foi estudar nos Estados Unidos com Katherine Dunham; nos anos 60, trabalhou também criando alegorias para o carnaval carioca, e em sua estreia, em 1963, com o Salgueiro, foi campeã com o enredo “Chica da Silva”. Mercedes Baptista, como ficou conhecida mundialmente, viveu até os 93 anos de idade, vindo a falecer no ano de 2014.

Minha avó, a mestra

avoNo ano de 1927 nascia minha avó, Creusa Carvalho Venancio, não poderia escrever sobre mulheres de garra sem falar da minha querida avó, formada pelo Liceu de Humanidades, logo foi chamada para trabalhar em uma fazenda pelas alturas de Santa Maria Madalena. Como muitas escolas rurais da época, feita de pau-a-pique. O seu pai apenas permitiu a sua ida para esta escola com a garantia da proprietária da fazenda de que a nova professora dormiria na casa grande sob os seus cuidados, e assim foi.

Nos anos 40 houve uma grande epidemia de Febre tifóide no estado do Rio que quase levou a minha avó, e causou a sua volta para Campos. Curada, casou-se com o meu avô e fundou uma escola rural na localidade de Vala do Mato, Escola Estadual Manuel Ribeiro Venancio.

No início dava aulas na sala da casa sede mesmo, e logo depois construiu a pequena escola. Entre a Escola rural, dedicou a sua vida a outro de seu amor, o Colégio Estadual Thiers Cardoso, onde trabalhou até receber uma cartinha do estado em agradecimento aos seus anos de trabalho, e aos 70 anos, com muito choro, foi forçada a se aposentar. A escola rendeu uma homenagem, nomeando o seu coral como: Coral divina Luz senhora Creusa Carvalho Venancio.  Quantas histórias escutamos de nossas avós, ou tias, professoras? A minha avó e todas de sua época foram lutadoras, dos tempos das praticamente extintas escolas rurais, da formação das primeiras grandes escolas de Campos, tempos de luta.

Terra de lutadoras

Campos é realmente uma terra de lutadoras, e são muitas para ficar em apenas um texto, como não falar da eterna “Chica da Silva” Zezé Motta? Da grande carnavalesca que trabalhou anos com Joãosinho trinta, a famosa Maria Augusta? Como não falar da primeira paleobotânica brasileira, a também campista Diana Mussa? São muitas, muitas que não estão nos livros devido a um passado onde a história era escrita e feita por homens, mas nós, campistas sabemos muito bem que aqui até mesmo as mulheres lutam pelo direito!

NENHUM COMENTÁRIO