Aposentadoria premiada: Jonas Lopes, o “Rei do Gado”

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300A Operação Lava Jato, comandada pelo juiz Sérgio Moro, e aplaudida pela grande maioria dos brasileiros por fazer valer a mão pesada da justiça em quem acreditava piamente na impunidade, chegou primeiro a Campos dos Goytacazes através da acusação na delação premiada do ex-diretor da Odebrecht Leandro Azevedo de que o advogado Jonas Lopes de Carvalho Júnior operava na aprovação de contratos que favoreciam a Odebrecht no Rio. Segundo Leandro Azevedo, Jonas Lopes pediu propina a executivos das três empreiteiras do consórcio responsável pela linha 4 do metrô do Rio: Queiroz Galvão, Odebrecht e Carioca Engenharia.

Um milhão no escritório

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Os pedidos de propina envolveriam o Maracanã e a Linha 4 do Metrô do Rio. Leandro Azevedo afirma que o valor de R$ 1 milhão foi entregue ao filho de Jonas Lopes, e advogado de Garotinho, Jonas Lopes de Carvalho Neto, no escritório de advocacia Lopes de Carvalho e Pessanha Advogados Associados (CNPJ: 09.330.783/0001-46), que ocupa um conjunto de sete salas no Centro do Rio. Essa empresa foi fundada em sociedade com o atual desembargador Francisco de Assis Pessanha Filho, sobrinho de Jonas, que foi Procurador Geral do Município de Campos dos Goytacazes no Governo Rosinha Garotinho.

Fiel escudeiro de Garotinho e Rosinha

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O advogado Jonas Lopes de Carvalho Júnior, campista dos mais notórios, é ex-presidente do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro por três mandatos e protagonista de uma carreira impressionante e meteórica, sempre como líder do braço jurídico/familiar do grupo político de Anthony Garotinho.

Filho do grande advogado criminalista Jonas Lopes de Carvalho, “Joninhas”, como é mais conhecido pelos campistas, ele passou pelos bancos escolares do Externato Regina, e do Liceu de Humanidades de Campos. Depois, seguindo a forte vocação familiar, cursou a tradicional Faculdade de Direito de Campos.

O jovem Jonas Lopes de Carvalho Júnior já vislumbrava a vida como um sucesso. Daí para frente estagiou advocacia no escritório do seu pai, o célebre Dr. Jonas Lopes de Carvalho e, depois disso, de posse da carteira de nº 36.424, da OAB, passou a exercer plenamente a profissão no mesmo escritório do seu pai.

Sempre empreendedor se tornou homem de confiança de Garotinho e foi Procurador da Prefeitura Municipal de Campos, em seu governo, Presidente da Caixa de Assistência e Previdência de Campos dos Goytacazes, também no governo Garotinho, e Secretário de Estado Chefe do Gabinete Civil da Governadoria do Estado do Rio de Janeiro, quando Garotinho era governador do Estado do Rio de Janeiro.

Desse último cargo, saiu ao ser indicado pelo seu líder político como Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro, através de mensagem enviada por Garotinho ao TCE no dia 19 de abril de 2000: “… honra-me levar à deliberação dessa Colenda Casa de Leis, o nome do Advogado Jonas Lopes de Carvalho Júnior para os fins do art. 99, XV, da Constituição local, possibilitando, depois de aprovado, sua posterior nomeação para o cargo de Conselheiro do Egrégio Tribunal de Contas deste Estado… (Anthony Garotinho Governador do Estado)”. Uma, bastante discutida na época, emenda à Constituição Estadual permitiu a nomeação de Lopes, alterando a lei que determinava que a vaga caberia ao Ministério Público Estadual.

Durante essa movimentada trajetória ascendente, “Joninhas” sempre se manteve fiel ao seu líder. Além de ter sido assessor de Garotinho na Prefeitura de Campos (RJ) e tesoureiro de campanha para o governo, em 98, ele foi investigado junto com Rosinha pela Receita Federal e pelo Ministério Público por suspeita de envolvimento em fraudes no programa de Garotinho, na rádio Tupi, em 95, além de ter sido sócio de Garotinho e de sua mulher Rosinha em pelo menos três empresas, todas extintas. Segundo a Folha de São Paulo de 13 de julho de 2001: “A primeira sociedade entre Lopes e Garotinho foi na empresa Segredo da Rosa Comércio de Produtos de Beleza Ltda., criada em dezembro de 94, depois que Garotinho perdeu o governo do Estado. Em 95, Garotinho vendeu as cotas a Lopes. A empresa foi extinta no mesmo dia que a Garotinho Editora Gráfica LTDA ME. Rosinha e Lopes foram sócios na Distribuidora Tem de Tudo de Campos Ltda, aberta em agosto de 95, e que já encerrou as suas atividades.”

Dias nublados

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Após a sua condução coercitiva no dia 13 de dezembro, durante operação da Policia Federal e  do Ministério Público Federal, para prestar depoimento sobre as acusações do executivo da Odebrecht de que ele teria pedido R$ 4 milhões em quatro parcelas de R$ 1 milhão, que seriam pagas de seis em seis meses, para aprovar o edital de concessão do estádio do Maracanã e o relatório de contas da linha 4 do metrô do Rio, no dia 28 de dezembro Jonas Lopes de Carvalho Júnior, ex-presidente do órgão encarregado de fiscalizar os gastos do governo do Estado do Rio, solicitou licença-especial durante três meses, a partir do dia 6 de março. Tempo que, imaginava-se, utilizaria preparando a sua defesa contra as graves acusações de que é alvo. Mas, ciente da situação delicada em que ele e seu filho Jonas Neto se encontravam, e aconselhado pela família para que contasse tudo, em curto prazo ele fechou um acordo de delação premiada, já homologada.

Aposentadoria premiada

Sem clima para voltar ao TCE, após delatar outros conselheiros, e tendo direito à aposentadoria integral, após as férias Jonas deverá ingressar com o seu pedido de aposentadoria e manter o seu confortável padrão de vida longe dos problemas que agora o afligem. Afinal, dois anos de tornozeleira em uma bela fazenda com todo o conforto e sem problemas financeiros passam rápido. Logo ele poderá voltar a desfrutar do burburinho carioca e dos dias de lazer em Búzios.

Um belo prêmio

Nesse acordo Jonas Júnior, segundo, o colunista Lauro Jarim, de O Globo, teria conseguido uma excelente premiação por sua delação: “Delator Jonas Lopes cumprirá prisão domiciliar longe do Rio. O ex-presidente do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro que fechou uma explosiva delação premiada ficará com tornozeleira eletrônica por dois anos. A prisão domiciliar será em sua fazenda de Além Paraíba (MG), bem distante dos escombros que restarão da Assembléia Legislativa do Rio após sua colaboração”.

Poderoso fazendeiro

Para se esquivar das adversidades e se refugiar dos insatisfeitos, nada melhor do que a tranquilidade do campo no conforto de uma grande fazenda.

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Jonas Lopes não é só um advogado de sucesso, mas também, em poucos anos, tornou-se um poderoso empresário do agro-negócio e grande fazendeiro em Além Paraíba, Minas Gerais, onde possui (66.6%) da Josan Agropecuária LTDA (CNPJ: 322.744.087-34), localizada na Estrada ETA, Aterrado, km 7, e fundada em 2007, com Capital Social Realizado de R$1.118.976,00, em sociedade com a sua esposa Sandra Marins Almirante Porto (33,3%) e o mineiro Amin Alfredo Jorge (00.1%), esse último, estrategicamente, figurando como administrador da empresa.

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Um latifúndio sempre em expansão

A Josan Agropecuária começou tímida, com um pequeno sítio, mas, segundo os vizinhos, aos poucos as propriedades em torno teriam sido adquiridas em cascata dos pequenos proprietários confrontantes, formando uma valorizada fazenda de cerca de 400 alqueires das melhores terras da região, avaliada em 25 mil reais o alqueire, cerca de 10 milhões de reais só em terras, com gado leiteiro e matrizes de ponta, disputadas por altos valores em leilões virtuais concorridíssimos, inclusive no badalado Canal Rural, e vencedores de concursos de gado em Minas Gerais.

 Laços facilitadores

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Em uma reportagem do Jornal Além Parahyba na edição de 21/12/2016, lê-se: “Jonas Lopes de Carvalho Júnior aportou em Além Paraíba no início da década de 2000, ocasião em que adquiriu uma pequena propriedade rural na localidade do Aterrado que pertencia à família dos irmãos Amin Alfredo e Marco Antônio Camilo Jorge, o segundo ex-vereador, ex-presidente da Câmara Municipal de Além Paraíba e atual vice-prefeito do município alémparaibano. Os laços de amizade foram se estreitando com o passar do tempo, e a confiança adquirida serviu para que os irmãos passassem

a ser vistos pelas ruas da cidade dirigindo um veículo com a logomarca da propriedade (Josan Agropecuária) e, segundo informações, fazendo contato com vários pequenos produtores da localidade no sentido de intermediar a compra

de terras a serem incorporadas à sua propriedade rural, hoje, são afirmativas não oficiais, com uma área correspondente há algumas centenas de alqueires. Amin Alfredo e Marco Antônio

tornaram-se, oficiosamente, administradores da Josan Agropecuária em Além Paraíba, intermediando a compra e venda de terras e de gado, aliás a maioria de altíssima qualidade genética.”

Leite & Matrizes

Inicialmente dedicando-se apenas ao gado leiteiro e à reprodução e venda de vacas de alto padrão, logo, Jonas Lopes tornou-se o maior fornecedor de leite da CooperAlém (Cooperativa Produtores de Leite de Além Paraíba), entregando diariamente uma produção em torno de 3 mil litros.

Mas, há algum tempo, o agropecuarista Jonas Lopes focou seus interesses no gado de corte e nas vacas de alto padrão vendidas nos leilões milionários. Os vídeos das suas vacas no Youtube mostram enormes e valiosos úberes túmidos de deixar embevecido qualquer ruralista. Basta digitar “Josan Leilão” no Youtube para conferir a beleza dos animais.

De olho no futuro

Sempre muito sagaz, o advogado e pecuarista Jonas Lopes também se preparou para diversificar e expandir a produção da Josan Acropecuária registrando a sua marca no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), em 18/04/2012, licenciando a marca Josan para produção de aves não vivas, iogurte, laticínios, leite, manteiga, margarina e ovos (904714675). Além de um segundo registro para animais de criação e animais vivos (904714810).

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Homens de preto

Tudo ia de vento em popa em direção a uma bela aposentadoria, impulsionada pelo enorme sucesso no agronegócio, com uma progressão geométrica nunca vista antes na bucólica cidadezinha de Além Paraíba, quando, na terça-feira, dia 13 de dezembro de 2016, os policiais federais da Operação Lava Jato bateram à porta do apartamento carioca do Dr. Jonas Lopes e o conduziram coercitivamente. Ele foi aparentemente tranquilo, não gritou e, nem muito menos, esperneou como o seu líder, parecia já saber, com antecedência, o que iria acontecer.

Bola de cristal

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Em mais um sugestivo trecho do Jornal Além Parahyba, na edição de 21/12/2016: “no mesmo final de semana, que antecedeu o fato e a vinda dos agentes policiais federais ao município alémparaibano, várias carretas, por volta de 10 a 12, foram vistas cortando as ruas da cidade transportando grande quantidade de gado, segundo afirmativas de populares, algo em torno de 400/500 animais. Todas as carretas vindas da estrada que liga a cidade à localidade do Aterrado. Ninguém sabe dizer para onde os animais foram levados.”.

Garotinho na mira de Bretas?

Agora, segundo o colunista Elio Gaspari de O Globo: “A colaboração de Jonas Lopes de Carvalho, ex-presidente do Tribunal de Contas do Rio, explodirá a estrutura das artes e manhas do PMDB no estado. Os ex-governadores Sérgio Cabral e Anthony Garotinho terão com o que se preocupar. Acima deles, por incrível que pareça, o poderoso Jorge Picciani, presidente da Assembleia Legislativa. Isso para não se falar nos demais conselheiros e nas pencas de prefeitos que passavam pelo Tribunal. A colaboração do doutor e de seu filho já foi homologada e, pelo andar da carruagem, a Polícia Federal e o juiz Marcelo Bretas estão preparando o bote”.

Se não deve, o que teme?

Contraditoriamente, o ex-governador Garotinho antecipou-se as eventuais acusações: “Os inimigos que tenho acumulado nestes anos defendendo o povo e combatendo essa quadrilha de malfeitores que assaltou o Rio e o Brasil podem querer – por vingança – me meter no meio. Podem me investigar, aliás, como já fizeram inúmeras vezes. A frase é antiga, mas não fica velha: quem não deve, não teme”.

Fogo amigo?

Dessa vez será difícil a Garotinho creditar possíveis acusações, se houverem, a inimigos, afinal, Jonas Júnior é seu fiel escudeiro de velhos tempos e Jonas Neto, seu advogado nas mais intricadas ações. Se Garotinho não deve e não teme, por que tanto medo?

Sinuca de bico

A certeza de Garotinho de que nada será dito contra ele mostra que a situação dos Jonas é delicada. Eventuais acusações que tenham feito que possam levar Garotinho à cadeia com a sua ajuda poderão ser devolvidas em uma eventual delação premiada do próprio Garotinho, o que os deixa na famosa “sinuca de bico”. Pois, se em sua delação premiadas ele omitir fatos importantes que poderão ser posteriormente apurados, as férias de dois anos na Fazenda de Além Paraíba poderão se transformar em férias bem mais longas na cadeia, no Complexo Penitenciário de Gericinó, em Bangu, onde, ironicamente, existe a Penitenciária Jonas Lopes de Carvalho (Bangu 4).

4 Comentarios

  1. Prezado Esdras, bom dia!
    Parabéns pela excelência de sua reportagem. Matou a pau, meu caro. Não sei se você tem recebeido o pdf do meu pequeno semanário, mas na edição de ontem (15 de março), mais uma vez o “Joninhas” mereceu ter seu nome estanpado em nossa primeira página. Afinal, com muita (des) honra minha Além Paraíba vai servir como prisão (sic) para esse sujeito já que ele aqui ficará, em sua magnífica fazendinha de pouco mais de 400 alqueires, cheio de mordomia, comendo filé mignos, bebendo schoth de primeira, etc. e tal, com uma belá tronozeleira quem sabe ornada de brilhantes.
    Mas voltando ao seu material, meus parabéns e fico honrado por ter dado a minha pequena contribuição.

    Um abraço,

    Flávio Senra – Jornal Além Parahyba

    EM TEMPO; gostei de seu livro que agora está nas mãos de minha esposa. Qualquer coisa que necessitar estou às ordens

  2. Carah Leo, o Brasil está se regenerando. As coisas estão indo para o caminho, pois o mal está sendo conhecido como algo que, um dia se manifesta, contra quem o pratica. Que bom seria, se nossa obrigação de sair de casa para votar, fosse recompensada com a eleição de um cidadão que honrasse o cargo, e conduzisse o mandato com brio.